domingo, 23 de novembro de 2025

Projeto ICECAP 2025: Chegar à Ilha de Livingston/Arriving at Livingston Island

 




Na Antártida, não existem povos indígenas, nem cidades, nem supermercados ou cinemas. As pessoas que veem aqui são geralmente cientistas, turistas ou pescadores (ou aqueles que ajudam/apoiam estes, como médicos, cozinheiros, eletricistas ou carpinteiros). Os cientistas que trabalham em terra, ficam em locais a que se chamam Bases cientificas, que pertencem geralmente a um pais.





 Na nossa viagem passamos pela Ilha de Rei Jorge (King George Island), na Baia de Fildes, onde se situam as Base Escudero (do Chile) e Base Bellingshausen (da Rússia), e fomos até à Ilha Greenwich onde fica a Base Capitan Arturo Prat (Chile). A viagem foi tão calma que nem notámos que tínhamos saído da Baia de Fildes. Em verdade, a Passagem de Drake foi igualmente muito calma para o que costuma ser. 




A Base Prat é uma bonita base chilena situada numa praia junto ao mar, onde fomos muito bem recebidos por Claudio Fuentes e os seus colegas. Foi ai que tive a oportunidade de estar com as primeiras focas Weddell desta vez (os primeiros pinguins (gentoo) foi na Ilha Rei Jorge). Entre estas viagens, tivemos várias reuniões e conversas entre todos da nossa expedição sobre como é a Base Búlgara, onde iremos ficar (onde fica, o que contém, onde iremos dormir, e a prioridades assim que chegarmos), além de começar a definir como serão os planos científicos entre as várias equipas.  




Como o navio Aquilles não tinha internet disponível, tornou contacto com as famílias difícil e foi mais complicado continuar com os preparativos. Inicialmente, estava previsto chegarmos à Base Búlgara dia 20 de Novembro, felizmente, para nossa alegria, foi possível chegar dia 16 de Novembro, pois estávamos já desejosos de estar em terra e de começar a trabalhar nos nossos projetos.





Antes de chegar à Base Búlgara St. Kliment Ohridski, foi tão notório que estávamos realmente na região Antártida, com glaciares impressionantes, icebergues gigantes, muitos pinguins e focas para nós fazer companhia. A chegada à base foi muito agradável pois já tínhamos estado aqui há 14 anos, tal como dito anteriormente, a estudar pinguins. O sentimento de estar novamente num local muito especial foi incrível. Os primeiros 2-3 dias são passados a “abrir” a base, com ligar a eletricidade, a água, as telecomunicações as principais prioridades. 




Um dos momentos importantes foi o hastear das bandeiras dos países que estavam representados na Base: a Bulgária, Portugal e os Estados Unidos da América. O grupo de colegas que estão na Base Búlgara são fantásticos e toda a comitiva está a fazer de tudo para que o trabalho de todos corra bem.  Agora já estamos a iniciar a parte cientifica, com vários projetos que iremos falar nestas semanas seguintes.

Mais nos próximos dias




(english version below)

In Antarctica, there are no indigenous people, no cities, no supermarkets or cinemas. The people that come to Antarctica are generally scientists, fishermen or tourists (or those that help/support these, such as doctors, cooks, electricians or carpenters). The scientists that work in land, stay in scientific Bases that generally belongs to a single country (the exceptions include the Italian-French station Concordia). In our trip we passed by King George (Isla Rey Jorge), Fildes Bay, where we visited the Escudero Base (Chile) and Bellingshausen Base (Russia),and then went to Greenwich Island to visit Capitan Arturo Prat (Chile). The trip was fairly calm that we barely noted we went out of Fildes Bay. Indeed, the Drake´s Passage, that is notorious for bad weather and bad conditions, was equally calm.






The Prat Base Station is a beautiful Chilean base situated on a beach , where we were very well received by Claudio Fuentes and colleagues. Muchas gracias!! It was there that I had the opportunity to be with the first Weddell seals (we already had been with the first gentoo penguins at King George Island (Isla Rey Jorge).. Between these trips, we had various working meetings between the members of the science expedition to start defining the science plans for the coming days and weeks. As the ship Aquilles had no available internet, being in touch with our families was not possible and added extra layer of complexity to our preparations. Initially, it was planned to arrive to our Bulgarian Base on the 20th November but happily, to our joy, it was possible to arrive nearly one week earlier, on the 16th November, as we were wishing to be in land and start working on our science projects.




Before arriving to the Bulgarian Base St. Kliment Orhridski, it was obvious that we were in an Antarctic region, with increasing amount of impressive glaciers, giant icebergs, many penguins and seals that were like saying “Welcome again!!!”. The arrival to our house (the lovely Bulgarian Base) was very nice as it was a recall to our stay 14 years earlier (as mentioned before), to study penguins. The feeling of being in such special place, like the Bulgarian Base, with such nice group of people, will stay with me forever. The first 2-3 days were spent in opening the base (getting everything back on, like electricity, water, telecommunications, as the top priorities. 




Everyone joined in. One of the most memorable moments was to raise the flags of the nationalities of the people that are in the base: Bulgaria, Portugal and the United States. The group that are on the Bulgarian Base (and those away, such as Dragomir Mateev (and his team at the Bulgarian Antarctic Institute) and Teresa Cabrita (and PROPOLAR team) are fantastic and everyone is committed to do everything so that all the science is done with success. Now, we are already starting the science, with various projects on in the coming weeks. Exciting!!!!





More adventures soon

José Xavier & José Seco


sábado, 15 de novembro de 2025

Project ICECAP 2025: Atravessar a passagem de Drake/Crossing the Drake passage

 


Atravessar a passagem de Drake é sempre entusiasmante e desafiante ao mesmo tempo. Aqui, as águas do Oceano Pacifico afunilam em direção ao Oceano Atlântico (através de uma corrente chamada “corrente circumpolar Antártica”), sendo conhecida por ser, na maioria das vezes com muito vento, mar encrespado e com fortes correntes.   Também quer dizer que o navio pode abanar mais do que o costume e temos de estar preparados. Pela vez que já fizemos esta travessia, em 2011, foi deveras complicado em mantermo-nos de pé tanto era a ondulação. Um dia de cada vez.



A partida de Punta Arenas (Chile) foi por volta das 17h da tarde de 10 de Novembro. Punta Arenas tem uma estátua do nosso Fernão de Magalhães, por tem descoberto o Estreito de Magalhães (daí o seu nome) que liga o Oceano Atlântico e o Oceano Pacifico. Nessa manhã, já tínhamos conversado com Kamen (comandante da Base Búlgara) que lhe daria os nossos passaportes ao pequeno almoço (8h) para se avançar com as autorizações e preparativos para a viagem de navio para a Ilha de Livingston. Eu, a Elka (coordena a parte de apoio nos barcos) e a Simona (cientista que estuda parasitas) fomos ainda comprar corda e cabos para as redes de pesca que iriamos utilizar com a Bobbie. Por volta das 10h já estávamos no cais do Porto de Punta Arenas perto do centro da cidade. Foi uma festa de transportar malas e pagagens para finalmente podermos entrar no navio chileno Aquilles. 








O navio Aquillles tem capacidade de ter muitas dezenas de pessoas, e sendo um navio militar, transporta muito chilenos do exercito, do Instituto Antártico Chileno e da armada chilena. Além de nós da comitiva Portuguesa, Búlgara e Americana, já conhecemos colegas Russos e um peruano. Também encontramos duas militares da Austrália e Nova Zelândia. Os chilenos têm sido fantásticos e sentimo-nos muito bem vindos no navio, tal como têm sido os nossos colegas Búlgaros e Americanos. Obrigado!!!




Assim que chegámos a bordo, foi-nos feita uma apresentação geral do navio Aquilles sobre as regras de segurança (onde ficar, o que fazer em caso de emergência, onde estão os refeitórios e as casas de banho, além da nossa cabine). Nunca esquecer: a nossa segurança sempre em primeiro lugar. A partida teve muito chilenos a fazer telefonemas finais para a suas famílias, pois alguns irão ficar 1 ano numa das Bases cientificas chilenas.  






Também não nos esquecemos de tomar comprimidos, ou adesivos, para o enjoo. Nestes primeiros 2-3 dias é aguentar ao máximo para não ficar enjoado e passasse os dias deitados a ler ou a trabalhar no computador, só nos levantamos para ir à casa de banho, comer e pouco mais.  Sobrevivência!



Agora, estou-vos a escrever à medida que atravessamos a Passagem de Drake. Este local é muito importante pois separa os continentes da América do Sul da Antártida há cerca de 30-50 milhões de anos e fez com que a Antártida ficasse rodeado de um Oceano Austral e coberta de neve e gelo (ficando com vegetação e animais (incluindo dinossauros) literalmente subterrados).   O navio não tem estado a abanar muito, pois tem 100 metros de comprimento. Não falhámos uma refeição até agora pois é importante comer e mantermo-nos hidratados. Lá fora já deu para ver e sentir a companhia de várias aves marinhas (petreis do cabo, petreis gigantes, albatrozes (sobrancelha preta, viajante)) mas ainda nada de icebergs pois ainda estamos a 1-2 dias de atravessar totalmente a passagem de Drake, passando para as águas do Oceano Austral bem frias. No entanto, com o ar gelado já se nota não estamos muito longe. O comandante na sua apresentação também mencionou o plano da viagem, indo a Baia de Fildes (Ilha de Rei Jorge, Península Antártica) primeiro, depois a uma outra base, Base Pratt chilena indo à base Búlgara daqui a 9-10 dias (20 Nov.). É aguentar...sem internet!!!
 Mais aventuras para breve





(english version below)
Crossing Drake´s passage we feel enthusiasm and being challenged by the Nature elements. At Drake´s passage, the waters from the Pacific Ocean are constricted in direction of the Atlantic Ocean  (through a current named “Antarctic Circumpolar Current”), being known for having  strong winds, wavy unrattled waters and challenging currents. This means that a ship can move far more than in other world ocean currents, and we have to be ready. In the first crossing by ship, in 2011, it was truly complicated with high waves. One day at a time…




Departure from Punta Arenas (Chile) was at 17h of the 10th November. Punta Arenas has a statue of our dearest Fernão de Magalhães who discovered the Magellan Strait  in connecting the Atlantic Ocean with Pacific ocean. In that morning, we discussed with Kamen (Base Commander of the Bulgarian Base) to give him our passports so that we could get permits to our Antarctic trip on the ship Aquilles (from Chile). I, Elka (coordinator of fieldwork, particularly using zodiacs) e Simona (Bulgarian scientist working on parasites) went to a shop to get the final ropes needed for the fish nets that we are going  to use with Bobbie (Bulgarian scientist, working with fish). By 10h we were already in the harbour of Punta Arenas city centre. It was a party of carrying all our bags and scientific gear for various inspections, prior joining the Chilean ship Aquilles. This ship has the capacity to have > 100 people, transporting logistical support for the Chilean bases, with Chilean people (from exercito and Armada  chilenos, as well as scientists form the Instituto Antártico Chileno). Beyond us of the science teams from Portugal, Bulgaria and USA, we already met people from Peru, Russia, New Zealand and Australia. The Chilean team onboard Aquilles has been fantastic and we felt very welcomed, similar to how it has been with our Bulgarian and American colleagues. Obrigado!!!




As soon as we got onboard, we were obliged to be at a very interesting general presentation about the ship Aquilles (e.g. where we will be staying, what to do in case of an emergency,  where to eat, wash and spend the time on our way to Antarctica). Never forget: safety comes first!! As we were departing you could witness numerous Chileans phoning their families as some of them will stay 1 year in the Antarctic. Also not to forget to take pills, or patches, for anti-sickness. In the first 2-3 days it is important to avoid being sick by laying down on the bed or work on the computer, only getting up  to go for the meals or WC and little else. Survival!!!
Now I am writing on our way of Drake´s passage. This region is very important as it separates the continents of South America and Antartica (the separation was 30-50 millions years ago), which created the Southern Ocean  and made the Antarctic continent to be isolated covered by snow and ice (only < 2% of Antarctica continent is not covered with snow and ice), and vegetation (trees, other plants) and animals (e.g. dinossaurs) being under the snow/ice nowadays (identified by dinosaur traces, like bones).





The ship Aquilles has not moved much as it is 100 meters long. We have not missed a meal yet. When we look outside, we are being accompanied by seabirds (including cape petrels, giant petrels, black-browed albatrosses, wandering albatrosses) but we have not seen icebergues yet (only after crossing the Antarctic Polar Front; an area where the waters change from 8-10 degrees celcius to 2-5 degrees celcius). Due to the cold air, we may not be very far. The commander of Aquilles informed us that the plan is to go to Fildes (King George Island/Isla Rey George, Antarctic Peninsula) first and getting at South Bay where we have the Bulgarian Base in 9-10 days (around 20th November). Just holding on…and without internet
More adventures soon

José Xavier & José Seco



domingo, 9 de novembro de 2025

Projeto ICE-CAP 2025: Partida para mais uma expedição Antártica/– ICE-CAP project 2025: Departure for another Antarctic expedition

 (english version below)




Cada expedição cientifica à Antártida é única. Seja por ir trabalhar com cientistas diferentes ou equipas novas, seja por termos objetivos cientificos novos, ou simplesmente por ter diferentes sensações de voltar a ver glaciares, focas e pinguins novamente. Mais provável é ser uma combinação de todas estas razões. Há vários anos que o nosso colega Búlgaro Dragomir Mateev questionava quando iriamos regressar à Base Búlgara St. Kliment Odhriski, após a expedição 2011-12. Aí, fomos estudar a competição entre os pinguins gentoo e pinguins de barbicha por alimento (Dimitrijevic et al. 2018), além de desenvolver um novo método para identificar o sexo dos pinguins (Loureiro et al. 2014), e de estudar a biomagnificação de mercúrio na cadeia alimentar da Península Antártica (Matias et al. 2022), que envolveu várias equipas de Portugal, Bulgária, Espanha, França e Reino Unido, e adicionalmente forneceu dados para 2 teses de mestrado. Isto parece que foi ontem!!!




A excitação de ir novamente ao continente gelado sentia-se há muito tempo, com as preparações para esta expedição, regressando a Ilha de Livingston, passados 14 anos. O projeto ICE-CAP (Efeitos cumulativos de contaminação na ecologia de organismos marinhos Antárticos), financiado pelo Programa Polar Português (PROPOLAR), pelo Programa Antártico Búlgaro e pela Universidade de Coimbra, com colaborações entre Portugal, Bulgária, Austrália, Espanha, França, Reino Unido e Estados Unidos da América. O projeto irá recolher amostras para estudar os efeitos da poluição por microplásticos (e os seus aditivos), metais pesados e elementos raros da Terra, e de doenças. Iremos trabalhar com pinguins gentoo e pinguins de barbicha, peixes e focas leopardo na Ilha de Livingston.




Para preparação da expedição, que demorou muitos meses, tivemos de nos candidatarmos a financiamento (ao PROPOLAR), fazer testes médicos (para saber se estamos aptos), obter autorizações (para poder fazer trabalho de campo, seguindo o Tratado da Antártida), reservar voos e acomodação, além de tentar ajustar toda a nossa vida profissional (ex. colocar aulas para antes ou depois da expedição, planear projetos de alunos para evitar este período) e pessoal (vamos estar ausentes no Natal e passagem de Ano).




A viagem começou por volta das 7.30h da manhã do dia 6 Novembro de Coimbra, com partida do aeroporto de Lisboa pelas 13.50 para S. Paulo (Brazil), depois para Santiago do Chile (às 1h horas locais), e finalmente para Punta Arenas. A viagem demorou sensivelmente 1 dia e meio. Duas das malas só chegaram mais de 24 horas depois (mas finalmente chegaram). Já nos reunimos com os colegas Búlgaros e Americanos, com várias conversas e reuniões sobre o plano de trabalho de campo Antártico, além de ter tido a possibilidade de estar com Lucas Kruger (que trabalha no Instituto Antártico Chileno) que fez o doutoramento connosco na Universidade de Coimbra. Estamos preparados 





ENGLISH VERSION

Each Antarctic scientific expedition is unique. It can be due to working with different scientists or other science teams, due to other scientific questions or simply due to the different sensations for seeing beautiful glaciers and our loving study animals (ex. penguins, seals). Most probably is a combination of all these reasons. For some years, our dearest colleague and friend Dragomir Mateev would ask me when we would return to the Bulgarian Antarctic Station St. Kliment Odhriski, after the 2011-12 expedition. Then we studied the competition between gentoo penguins and chinstrap penguins for food  (Dimitrijevic et al. 2018), along with developing a new method to sex penguins (Loureiro et al. 2014), and study biogmanification of mercury along the marine foodweb in Antarctic Peninsula (Matias et al. 2022), that involved teams Portugal, Bulgaria, Spain, France and United Kingdom, and additionally  it supplied data for two MSc theses. It feels like it was yesterday!!!



The excitement of going back to the frozen continent has been felt for a long time, with preparations for this science expedition, returning to Livingston Island after 14 years and work directly with our Bulgarian colleagues. The ICE-CAP project (Cumulative effects of contamination on the ecology of Antarctic marine organisms), financed by the Portuguese Polar Programme (PROPOLAR), by the Bulgarian Antarctic Programme and by the University of Coimbra, with collaborations with organizations from Portugal, Bulgaria, Australia, Spain, France, UK and USA. The Project aims to collect samples on the effects of contamination/pollution of microplastics (and their additives), trace metals and rare Earth elements, and diseases. We will work with, at least, two species of penguins (gentoo and chinstrap), two species of fish (Notothenia rossii and N. coriiceps) and leopard seals in Livingston Island. 




The preparation of the expedition took many months, in which we applied for funding for PROPOLAR, done medical tests (to prove that we are fit for Antarctic fieldwork), obtain research permits (to allow us to conduct fieldwork following the Antarctic Treaty requisites), booked flights and accommodation, and adapt our professional (E.g. lecturing duties put before and after the expedition, plan student projects to avoid this period) and personal life (E.g. we are away from our families at Christmas and New Years). 


The trip started around 7.30am on the 6th November from Coimbra, flying from Lisbon airport from 13.50 to S. Paulo (Brazil), then to Santiago do Chile (Chile), and finally to Punta Arenas (south Chile). All these flights took around 1 day and a half. Two pieces of our luggage only arrived more than 24h later (but finally arrived). We already met our Bulgarian and American colleagues, with various conversations and meetings taken place about our research plan. We also managed to see our dearest Lucas Kruger, who works at the Instituto Antártico Chileno (INACH) and made his PhD studies with us at the University of Coimbra. We are ready 


José Xavier & José Seco