sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

9. Passagem de Ano


Foi a primeira passagem de ano passada longe da família! Logo tinhámos de suavizar o impacto das saudades ao integrarmos ao máximo no ambiente Antárctico com todas as pessoas com quem estavamos. O primeiro passo foi conseguir um dia na semana de Natal para cozinharmos para toda a gente na nossa Base...eram apenas 12 pessoas!!!!! Uma tarefa aparentemente intimidante, mas com boa música portuguesa a acompanhar-nos (Deolinda, Xutos e Pontapés, Ace,...), lá cozinhámos um clássico bitoque! Porquê bitoque? Porque não?


Colocámos a mesa tipicamente Portuguesa, com pão, azeite e azeitonas. O aperitivo escolhido foi pequenas espetadas (feitas com palitos) com pequenos quadrados de pão, queijo, pimento verde, presunto e azeitonas. Fizemos uns bons bifes na frigideira com Azeite Português, um arrozinho branco com cenoura e ervilhas (sim, havia por cá) e batatas fritas a acompanhar. Houve boa conversa sobre Portugal e os nossos costumes, ao apresentar tal prato que existe em qualquer casa de pasto Português. A sobremesa foi a nossa arma secreta, com uns bolinhos feitos em Portugal (prenda de Natal da família!), que os como desde que me lembro do Natal, de noz e amêndoa que fizeram a delícia de todos. Até a Galia (a nossa querida cozinheira) pediu a receita;)

Depois de andarmos bastante atarefados com mais trabalho de campo em Sando Point (ver o próximo artigo) e no laboratório (sim tivemos de trabalhar nos 2 dias, dias 31 e 1), o dia da passagem de ano chegou. E que dia... de manhã fomos à Base Espanhola com o Bobby para resolver questões informáticas, e ao fim da tarde foi-nos dado a notícia que iriamos celebrar 4 Anos Novos!!! Não percebemos...

Às 6 da tarde (9 da noite em Portugal), a Base Bulgara entra numa actividade nunca vista. Havia que celebrar o Ano Novo na Bulgária às 7 da tarde...e como tradição aqui há que ir para o Monte Krum (a 5 a 7 min de skidoo (45 minutos a pé!); ir também ao google caso não tenham a certeza do que é). E assim foi. A vista do Monte Krum é lindissima, com glaciares, a Base, a Baia Sul à frente, o monte de gelo Friesland (com picos de mais de 1500 metros de altura) e o Monte Bowles (com apresenta fissuras muito interessantes)....Com champagne e palavras do membro mais velho da Base (Roman), lá se celebrou o Ano Bulgaro.


Descemos à pressa para a Base pois a RDP Antena 1 tinha-nos contatádo para falar connosco em directo para as celebrações do Ano Novo em Portugal (com Edgar Canelas, Cristina Condinho e amigos). Foi muito bom ouvi-los e partilhar um pouco a nossa experiência, a importância do nosso trabalho cientifico e falar com pouco de Português. Ficámos com um sorriso gigante! Pouco depois era tempo de celebrar o Ano Novo na Polónia (o Sando vive lá!) e às 9 da noite fomos nós com todos os Portugueses;)))) e finalmente à meia noite local (3 da manhã em Portugal), celebrámos o Ano Novo de Livingston Island.


Foi uma noite muito divertida com todos em bons espiritos, que muito nos fez reduzir todas as saudades quando estamos longe!


BOM ANO 2012!!!!


José Xavier e José Seco


8. Ciência Antártica é feita de acordo com...


Não há qualquer dúvida que um dos factores principais que deveremos ter em conta quando se faz uma expedicão cientifica à Antártica é o tempo. Sim, as condições atmosféricas! Pode-se planear tudo ao pormenor, ao minuto até, equacionar os imprevistos em que só depende de nós para que as coisas corram bem...e depois há que ter em conta com o tempo!!!

No nosso projecto PENGUIN, que envolve estudar pinguins na Antártica, as condições com que podemos trabalhar com eles são importantes. Para trabalhar com eles, idealmente é necessário um dia bom de tempo. Caso estejamos longe da colónia, e seja necessário as aceder por mar por pequenos barcos (chamados zodiacs; procurar no google caso não saibam;)) ou por terra com skiis ou simplesmente a pé, não é possivel o fazer caso haja uma grande ondulação/boa visibilidade/muitos icebergues na água/ventos fortes/forte queda de neve, tudo que ponha em causa a nossa segurança. E claro, há que pensar nos animais que estamos a estudar. Chover não é nada bom pois agarrar nos pinguins é muito desconfortável para eles....


Por isso, reunimo-nos todos os dias a ver as previsões do tempo para os dias seguintes, analisar quais os melhores dias para ir às colónias...e caso haja bom tempo para o dia seguinte, será mesmo?

As condições de tempo em Livingston Island, tal como em muitas partes da Antártica e arredores (tal como nas Ilhas Falkland/Malvinas), mudam literalmente de hora a hora. Para ilustrar isto mesmo, foi a nossa primeira ida a Hannah Point. Previsão de boas condições para o dia. Excelente, pensámos... de manhã as condições pareciam ideais com mar calmo, boa visibilidade. Na nossa viagem, que demora cerca de 1 hora, apanhámos uma chuva torrencial, muita nublosidade, nevoeiro, ondulação e só quando possemos pé em Hannah Point, parece que o céu deu-nos tréguas. Parou de chover e as temperaturas aumentaram...já no regresso gelo/icebergues pequenos na água apareceu e quantidades apreciáveis (devido a estarmos perto de glaciares que regularmente libertam-nos) e o vento era muito forte!


Sair à rua na Antárctica, é mesmo necessário trazer roupa para as 4 estações do ano...caso não sejam pinguins claro;)



José Xavier


7. O "dia" de um estudante


Se és um estudante de Biologia e estas a ler este blog, imagina que daqui a umas semanas alguém te faz um convite para vires fazer trabalho de campo a Antárctida, como reagias? E uma pergunta no minimo estranha, mas foi o que me aconteceu!!

Estava no meu último ano de licenciatura, a fase complicada em que tinha que decidir a área a seguir no mestrado...que acabou por recair em ecologia na Universidade de Coimbra. Fui então falar com diferentes professores para perceber os projectos de investigação em que me poderia integrar. Uns dos que mais me cativaram foram os do grupo do Investigador José Xavier, do Instituto do Mar (IMAR-CMA) da Universidade de Coimbra, sobre Ecologia Marinha na Antártica. Para além do obvio interesse em pinguins, por serem animais tão carismáticos, as interacções predador-presa sempre foi algo que me despertava interesse. Optei por um projecto que iria estudar a ecologia trófica de vários predadores, incluindo albatrozes, o Bacalha

u do Antárctico e pinguins, focando particularmente na importância dos cefalópodes (lulas e polvos) no Oceano Antárctico. Ingressei assim este fantástico grupo de trabalho em Abril de 2011.

Semanas depois, já tinha realizado algum trabalho no laboratório, e ajudei outros colegas nos seus projectos de Mestrado mais adiantados (mostrando dedicação e o gosto que tenho pela ciência), tive uma nova reunião com o meu orientador de mestrado, para falar sobre o ponto de situação de todo o projecto. Uma reunião perfeitamente normal, até que no final o José me perguntou “Há uma possibilidade muito remota de no próximo ano (ou seja agora!!!) haver uma expedição à Antártica. Se eu te perguntasse se querias participar, qual seria a tua disponibilidade?”, como é obvio a minha resposta foi um “Claro que sim!” quase instantâneo! Sai do gabinete com um enorme sorriso na cara, não é todos os dias que nos fazem propostas destas, mas estava com os pés bem assentes na terra, tendo perfeita noção que ainda era um possibilidade muito remota.


A confirmação que eu tanto ansiava veio em Agosto! O convite foi oficializado! Se antes já passava algum do meu tempo a sonhar com esta viagem de sonho, a partir desta reunião não houve dia em que o continente branco não tenha passado umas boas horas no meu pensamento!


O tempo até a semana do embarque passou a voar, com os preparativos e uma reunião com todas as equipas da 1 campanhã Polar Portuguesa! Quando dei por mim estava a menos de 5 dias, mas foram 5 dias em que parecia que o relógio tinha parado...A viagem fez-se bastante bem, até a chegada da Passagem de Drake (que fica entre a América do Sul e a Antártica)! Mas este episodio já foi falado anteriormente no blog;)


Assim que vi o meu primeiro pinguim a menos de 2 metros de mim, era um pinguins de barbicha que estava na praia da base bulgara, todas as dificuldades da viagem de barco desapareceram! Devo ter feito mais de 100 fotos dele! São, sem dúvida, os animais mais engraçados que alguma vez vi! Mas não são só os pinguins que fascinam, aqui tudo é espetacular! O azul do glaciar, o branco da neve, o brilho do sol, parece que são diferentes aqui! Há um sentimento de paz e calma a pairar no ar!


Todos os dias são dias de arduo trabalho mas ao estar aqui , os dias têm um brilho especial e diferente. Os melhores são aqueles em que o tempo nos permite ir até as colónias, são locais indescrítiveis que transbordam vida! A Antártida é, para mim, o melhor local de trabalho de todo o mundo, mas como tudo o que é bom, não é fácil! Como temos um periodo para o trabalho de trabalho limitado (só estaremos aqui cerca de 40 dias), é tudo muito intensivo, não nos podemos dar ao luxo de tirar dias de folga, não há fins de semana e trabalha-se com temperaturas muito negativas, com vento e neve à mistura! É duro, mas tudo vale a pena quando vemos um pequeno pinguim a sair das nossas mãos a andar e a seguir a sua vida como se nada se tivesse passado!


A experiência que ganhei no último mês vai mudar muitos aspectos da minha vida quando voltar a “terra-mãe” tanto a nível profissional, porque adquiri técnicas e métodos muito importantes, como a nível pessoal. Aqui, aprendemos a relativizar as coisas (não morro se não beber coca-cola todos os dias!) com uma vida sem acesso à internet, sem TV, sem cinema, sem telefone, sem sms gratuitos, sem outros dos muitos facilitimos da aldeia globlal. Mas tudo é perfeitamente funcional e até mais saudável...não há outra opção, estamos literalmente no fim do mundo!!!!


José Seco

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

6. Projecto PENGUIN: Natal

Acordámos ao som da neve a bater na janela...estava a nevar, uma vez mais! O dia não podia ter começado de melhor maneira, já que nos dias anteriores as temperaturas tinham subido um pouco e chovia. E o Natal na Antárctica tinha de ser Branco...muita Branco!!!!

A noite anterior, de dia 24 de Dezembro, já tinha sido um autêntico banquete, à moda da casa pois claro. Todos nós, os 12 membros da Base, julgávamos preparados para o que ai vinha, mas puro engano. Na tradição Bulgara tem-se 7 pratos diferentes, todos vegetarianos: pão tipico, salada de pepino verde com alho, arroz dentro de pepinos vermelhos e de folhas de couve, feijão branco, sobremesa...e uma bebida de fruta sem alcool, que fez uma boa alternativa à Rakia. Depois do jantar, e para tentar digerir um pouco, alguém pôs a música um pouco mais alta e foi ver os membros mais clássicos da base (o Sando, que estava estava a perder fortemente o combate contra o sono, foi o exemplo primário) a dar um autêntico reportório de como bem dançar e que muito nos fez rir numa noite longe de todos. Claro que muitos dos nossos pensamentos estavam com todos os que nos são queridos em Portugal...e sabendo que o sabor do nosso Bacalhau não seria saboreado por nós, foram as suas vozes que nos dão aquela força para continuar a aproveitar tudo ao máximo;)


Depois de um breve chá na manhã do dia de Natal, pois o pé de dança nem de perto nem de longe deu para digerir tudo o que tinhamos comido na noite anterior, já o comandante da Base Daddy nos despachava para nos pormos nos skidoos para irmos para a Base Espanhola Juan Carlos I, para continuarmos com o banquete Natalicio, mas agora na versão Espanhola. Antes disso, fomos à igreja para por uma vela por todos os que nos são queridos e para desejar votos de um Bom Natal a todos. O Dedo e o Misho ficaram na base por questões de segurança e saúde (o Misho estava com uma dor nas costas após um passo de dança mais afoito), e lá fomos nós de skidoo...para conseguirmos ir todos, o Bobby, o Bojo, o Doctor Zezo e o Roman foram de skiis rebocados pelos skidoos. Super divertido! Subimos até um ponto mais elevado em que num dia limpo dava para ver que ficava entre montanhas, atravessámoos um glaciar e finalmente, depois de chegarmos a um refúgio Espanhol, foi descer a pé mais 15 minutos até à Base Espanhola. Fomos recebidos por um “Feliz Navidade”, com um grande sorriso e um abraço do comandante da Base Espanhola, Jordi. Depois de cumprimentarmos todos os 11 Espanhóis, lá nos sentámos novamente ao almoço e...com uma entrada de Ananás com camarões, com um prato principal de cordeiro assado, solha no forno, uma enormidade de doces e boa conversa, mal nos podiamo-nos respirar;) Depois foi subir novamente o monte para regressar à Base...para que no dia seguinte fosse a vez dos Espanhóis visitarem a Base Bulgara. À chegada questionou-se se daqui 2 dias seria possível ir a Hannah Point recolher mais amostras, e para não arriscar, passámos as últimas horas do Natal, e a manhã do dia 26, a analisar amostras dos pinguins para que estivessemos preparados para a próxima ida. Conseguimos acabar todas já depois do almoço com os Espanhóis no dia 26 de Dezembro.

A recepção Bulgara foi excelente e mais um almoço, que desta vez terminou no Bar. O Bar, é simplesmente a Base original Bulgara onde viviam 6-7 cientistas Bulgaros, e que é um Museu, correio, hotel...e Bar! Nunca pensei que fosse possível ver 16 pessoas num espaço tão pequeno mas é! O dia terminou com os Espanhóis a regressarem com um grande sorriso à Base Espanhola, a cantarem “Feliz Navidad” do Zodiac...

Feliz Natal para todos !!!!


José Xavier & José Seco






5. Projecto PENGUIN: Hannah Point

Assim que falámos em Hannah Point os olhos do Espanhol Federico brilharam! Ainda estávamos a bordo do navio oceanográfico Espanhol Las Palmas, quando ele se apresentou como o responsável pelo zodiac (barco de transporte de pequenas dimensões, optimo para pequenas viagens e transporte de mercadoria de pequeno porte) Espanhol e que seria ele que nos levaria a Hannah Point. Já lá tinha estado várias vezes e disse-nos, sem hesitar, que era o local mais belo de toda a ilha! Todos lá querem ir! Pois transborda de vida, com todo o tipo de animias, elefantes marinhos, petreis gigantes, moleiros do Antártico e claro MUITOS pinguins! Depois de estarmos bem acomodados na Base Bulgara de St. Kliment Ohridski, há quase uma semana, depois de várias reuniões com os comandantes das bases Bulgara e Espanhola, e com muitas consultas ao mapa das previsões atmosféricas, lá se conseguiu concluir que a primeira ida a Hannah Point seria na Terça-feira (20 de Dezembro). A preparação de todo o equipamento a levar começou dias antes, e estavamos anciosos de conhecer tal famoso local de Livingston Island. No dia, a confirmação veio da Base Espanhola por rádio a dizer que o tempo estaria aparentemente bom e que seria uma boa aposta irmos. Assim, tivemos de preparar os 2 zodiacs, Bulgaro e Espanhol, com uma equipa de 10 pessoas. A viagem demorou cerca de uma hora, com uma paragem de 10 minutos a caminho para deixar equipamento Espanhol para casos de emergência. Quando saímos da nossa Base, não havia vento, o mar apresentava-se calmo e parecia que iriamos ver sol. No entanto, a Antárctica mostrou-nos que não é bem assim, e que aqui, as condições atmosféricas podem mudar radicalmente em minutos ou horas. Quando nos juntámos ao zodiac Espanhol, 15 minutos depois, o vento já se estava a levantar e em breve, estava a chover. Nessa altura, pensámos o pior. A chover não nos seria possível obter amostras dos pinguins, pois o manuseamento deles nessas condições se torna muito dificil...e na verdade queremos sempre o bem deles. E continuou a chover por largos minutos até que os nossos amigos Bulgaros disseram a palavra mágica... “Ayde! “. Vamos, como quem a pedir a Deus e ao St. Kliment para nos ajudar! E as nos preces foram ouvidas... Como por magia, e quando Hannah Point comecava-se a desenhar no horizonte, parou de chover e o vento baixou...Atracamos na praia mesmo ao lado de um harem de elefantes marinhos. A partir daí o nosso tempo voou pois tinhamos muitas coisas para fazer com os pinguins...inicialmente demos a volta a Hannah point para saber quais as espécies que se estavam a reproduzir lá, a sua abundância, e que perspectivas tinhámos de recolher as amostras a que nos tinhamos proposto obter. Deu logo para perceber que não havia pinguins de barbicha e de Adelia, e que teriamos de pensar mais um pouco onde obter amostras deles. Para estudar os pingins gentoo, quer estavam por todo o lado, recolhémos amostras (penas, sangue e fezes; as penas para saber onde, e o que, comeram no último ano, o sangue na última semana e as fezes, nos últimos dias) o que nos vai dar informação importante sobre o que se estão a alimentar e como podem competir por comida com as outras espécies de pinguins. O dia foi fascinante mas muito intensivo pois pegar em pinguins não é pera doce, que o diga o José Seco: “Apesar de terem um ar muito amistoso e de animal muito querido, quando se sentem agarrados, lutam com todas as suas forças para se libertarem!! Pelo menos durante uns segundos, até voltarem a acalmar no nosso colo.. Entretanto essa altura já tinha 3 ou 4 nodoas negras graças as bicadas e os dedos dormente, como se tivesse voltado a levar reguadas da minha professora da primária! Mas vale tudo a pena quando os libertamos e os vemos a caminhar com se nada fosse e com o seu andar tão tipico!” Não parámos excepto para saborear a magnifica sandes que a querida Galia nos tinha preparado nessa manhã (e não havia Hotel de 5 estrelas que nos podia proporcionar a vista)!!! Regressámos à Base com um sorriso gigante nesse dia...o noso primeiro de trabalho de campo em Hannah Point...

Ayde!!!

José Xavier & José Seco