segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

6. Projecto PENGUIN: Natal

Acordámos ao som da neve a bater na janela...estava a nevar, uma vez mais! O dia não podia ter começado de melhor maneira, já que nos dias anteriores as temperaturas tinham subido um pouco e chovia. E o Natal na Antárctica tinha de ser Branco...muita Branco!!!!

A noite anterior, de dia 24 de Dezembro, já tinha sido um autêntico banquete, à moda da casa pois claro. Todos nós, os 12 membros da Base, julgávamos preparados para o que ai vinha, mas puro engano. Na tradição Bulgara tem-se 7 pratos diferentes, todos vegetarianos: pão tipico, salada de pepino verde com alho, arroz dentro de pepinos vermelhos e de folhas de couve, feijão branco, sobremesa...e uma bebida de fruta sem alcool, que fez uma boa alternativa à Rakia. Depois do jantar, e para tentar digerir um pouco, alguém pôs a música um pouco mais alta e foi ver os membros mais clássicos da base (o Sando, que estava estava a perder fortemente o combate contra o sono, foi o exemplo primário) a dar um autêntico reportório de como bem dançar e que muito nos fez rir numa noite longe de todos. Claro que muitos dos nossos pensamentos estavam com todos os que nos são queridos em Portugal...e sabendo que o sabor do nosso Bacalhau não seria saboreado por nós, foram as suas vozes que nos dão aquela força para continuar a aproveitar tudo ao máximo;)


Depois de um breve chá na manhã do dia de Natal, pois o pé de dança nem de perto nem de longe deu para digerir tudo o que tinhamos comido na noite anterior, já o comandante da Base Daddy nos despachava para nos pormos nos skidoos para irmos para a Base Espanhola Juan Carlos I, para continuarmos com o banquete Natalicio, mas agora na versão Espanhola. Antes disso, fomos à igreja para por uma vela por todos os que nos são queridos e para desejar votos de um Bom Natal a todos. O Dedo e o Misho ficaram na base por questões de segurança e saúde (o Misho estava com uma dor nas costas após um passo de dança mais afoito), e lá fomos nós de skidoo...para conseguirmos ir todos, o Bobby, o Bojo, o Doctor Zezo e o Roman foram de skiis rebocados pelos skidoos. Super divertido! Subimos até um ponto mais elevado em que num dia limpo dava para ver que ficava entre montanhas, atravessámoos um glaciar e finalmente, depois de chegarmos a um refúgio Espanhol, foi descer a pé mais 15 minutos até à Base Espanhola. Fomos recebidos por um “Feliz Navidade”, com um grande sorriso e um abraço do comandante da Base Espanhola, Jordi. Depois de cumprimentarmos todos os 11 Espanhóis, lá nos sentámos novamente ao almoço e...com uma entrada de Ananás com camarões, com um prato principal de cordeiro assado, solha no forno, uma enormidade de doces e boa conversa, mal nos podiamo-nos respirar;) Depois foi subir novamente o monte para regressar à Base...para que no dia seguinte fosse a vez dos Espanhóis visitarem a Base Bulgara. À chegada questionou-se se daqui 2 dias seria possível ir a Hannah Point recolher mais amostras, e para não arriscar, passámos as últimas horas do Natal, e a manhã do dia 26, a analisar amostras dos pinguins para que estivessemos preparados para a próxima ida. Conseguimos acabar todas já depois do almoço com os Espanhóis no dia 26 de Dezembro.

A recepção Bulgara foi excelente e mais um almoço, que desta vez terminou no Bar. O Bar, é simplesmente a Base original Bulgara onde viviam 6-7 cientistas Bulgaros, e que é um Museu, correio, hotel...e Bar! Nunca pensei que fosse possível ver 16 pessoas num espaço tão pequeno mas é! O dia terminou com os Espanhóis a regressarem com um grande sorriso à Base Espanhola, a cantarem “Feliz Navidad” do Zodiac...

Feliz Natal para todos !!!!


José Xavier & José Seco






5. Projecto PENGUIN: Hannah Point

Assim que falámos em Hannah Point os olhos do Espanhol Federico brilharam! Ainda estávamos a bordo do navio oceanográfico Espanhol Las Palmas, quando ele se apresentou como o responsável pelo zodiac (barco de transporte de pequenas dimensões, optimo para pequenas viagens e transporte de mercadoria de pequeno porte) Espanhol e que seria ele que nos levaria a Hannah Point. Já lá tinha estado várias vezes e disse-nos, sem hesitar, que era o local mais belo de toda a ilha! Todos lá querem ir! Pois transborda de vida, com todo o tipo de animias, elefantes marinhos, petreis gigantes, moleiros do Antártico e claro MUITOS pinguins! Depois de estarmos bem acomodados na Base Bulgara de St. Kliment Ohridski, há quase uma semana, depois de várias reuniões com os comandantes das bases Bulgara e Espanhola, e com muitas consultas ao mapa das previsões atmosféricas, lá se conseguiu concluir que a primeira ida a Hannah Point seria na Terça-feira (20 de Dezembro). A preparação de todo o equipamento a levar começou dias antes, e estavamos anciosos de conhecer tal famoso local de Livingston Island. No dia, a confirmação veio da Base Espanhola por rádio a dizer que o tempo estaria aparentemente bom e que seria uma boa aposta irmos. Assim, tivemos de preparar os 2 zodiacs, Bulgaro e Espanhol, com uma equipa de 10 pessoas. A viagem demorou cerca de uma hora, com uma paragem de 10 minutos a caminho para deixar equipamento Espanhol para casos de emergência. Quando saímos da nossa Base, não havia vento, o mar apresentava-se calmo e parecia que iriamos ver sol. No entanto, a Antárctica mostrou-nos que não é bem assim, e que aqui, as condições atmosféricas podem mudar radicalmente em minutos ou horas. Quando nos juntámos ao zodiac Espanhol, 15 minutos depois, o vento já se estava a levantar e em breve, estava a chover. Nessa altura, pensámos o pior. A chover não nos seria possível obter amostras dos pinguins, pois o manuseamento deles nessas condições se torna muito dificil...e na verdade queremos sempre o bem deles. E continuou a chover por largos minutos até que os nossos amigos Bulgaros disseram a palavra mágica... “Ayde! “. Vamos, como quem a pedir a Deus e ao St. Kliment para nos ajudar! E as nos preces foram ouvidas... Como por magia, e quando Hannah Point comecava-se a desenhar no horizonte, parou de chover e o vento baixou...Atracamos na praia mesmo ao lado de um harem de elefantes marinhos. A partir daí o nosso tempo voou pois tinhamos muitas coisas para fazer com os pinguins...inicialmente demos a volta a Hannah point para saber quais as espécies que se estavam a reproduzir lá, a sua abundância, e que perspectivas tinhámos de recolher as amostras a que nos tinhamos proposto obter. Deu logo para perceber que não havia pinguins de barbicha e de Adelia, e que teriamos de pensar mais um pouco onde obter amostras deles. Para estudar os pingins gentoo, quer estavam por todo o lado, recolhémos amostras (penas, sangue e fezes; as penas para saber onde, e o que, comeram no último ano, o sangue na última semana e as fezes, nos últimos dias) o que nos vai dar informação importante sobre o que se estão a alimentar e como podem competir por comida com as outras espécies de pinguins. O dia foi fascinante mas muito intensivo pois pegar em pinguins não é pera doce, que o diga o José Seco: “Apesar de terem um ar muito amistoso e de animal muito querido, quando se sentem agarrados, lutam com todas as suas forças para se libertarem!! Pelo menos durante uns segundos, até voltarem a acalmar no nosso colo.. Entretanto essa altura já tinha 3 ou 4 nodoas negras graças as bicadas e os dedos dormente, como se tivesse voltado a levar reguadas da minha professora da primária! Mas vale tudo a pena quando os libertamos e os vemos a caminhar com se nada fosse e com o seu andar tão tipico!” Não parámos excepto para saborear a magnifica sandes que a querida Galia nos tinha preparado nessa manhã (e não havia Hotel de 5 estrelas que nos podia proporcionar a vista)!!! Regressámos à Base com um sorriso gigante nesse dia...o noso primeiro de trabalho de campo em Hannah Point...

Ayde!!!

José Xavier & José Seco




sábado, 24 de dezembro de 2011

4. Projecto PENGUIN: As primeiras 24 horas


A chegada a Livingston Island foi feita num dia com potencial...nublado com abertas e com um vento a baixar, as ondas estavam boas para o surf mas péssimas para desembarcar. O Santiago (do navio Las Palmas) questionou-nos se preferiamos ir já para a Base Búlgara S. Kliment Ohridski, onde iriamos fazer o nosso trabalho de campo, ou para a Base Espanhola Juan Carlos I onde teria de conversar com o Comandante da Base Jordi sobre questões logísticas. Decidimos que era melhor ficar já Base Búlgara para acelerarmos logo com os preparativos do trabalho de campo.

A chegada à Base Búlgara é feita pela praia por barco (zodiac), entre mini iceberges e umas ondas de meio metro quebra coco (ou seja a quebrar na areia) que dificultavam tudo. Fomos muito bem recebidos pelo comandante da Base Daddy e por colegas da Bulgaria, Japan e Mongolia, todos super sorridentes e atenciosos, tal como vários pinguins que estavam na praia. Ficámos muito bem instalados numa casa triangular, que muito me fez lembrar dos Alpes Suiços. A Base fica praticamente na praia e com uma vista deslumbrante para o glaciar Pimpirev. Percebi logo o porquê do sorriso que todos tinham...

As primeiras 24 horas passaram a voar. O Comandante mostrou-nos a base, muito acolhedora, revestida com simbolos religiosos da região Cristã Ortodoxa (aliás, a Base Bulgara é uma das poucas bases cientificas na Antártica que possui uma igreja), e com um orgulho muito grande da sua história. Fez-nos sentir em casa quando tivemos de beber Rakia, a versão Bulgara de água ardente, que só os Bulgaros a conseguem beber como fosse água...

As questões de segurança são sempre levadas a sério, e elas estavam em Bulgaro e em Inglês, escritas minuciosamente à mão. De momento, somos 21 pessoas: O Comandante Daddy, os BBB - Bobby, Bojo (assistentes de campo), Boico (Geólogo), Misho,Vasko, Emo – Dedo e Sasho / Sando(assistentes técnicos), os 4 Japoneses cientistas (que possuem 2 aviões fabulosos para estudos de geomagnetismo), o Prof . Dugre da Mongolia (Geólogo), Galia (a nossa querida cozinheira), Milena (Geófisica), Krisi (Representante de uma empresa eólica que esperam montar um aparelho aqui nos próximos anos), Jana (fotografa), Roman (coordenador de operações por mar), e o médico Zezo. É incrível como todos somos capazes de nos sentar na mesma mesa.

As ementas são diversificadas mas existe um padrão: o pequeno almoço são torradas com manteiga e chá/café, o almoço é geralmente uma salada e sopa (comi shembe, que não é nada mais nada menos do ue a nossa dobrada sem feijão e só com o estômago do porco), e o jantar começa sempre com uma salada (tomate, cebola, pimento, oregãos), seguido por um prato de carne com batatas cozidas...e muito pão bem acabado de fazer com manteiga....

Antes de jantarmos, nós fomos quase todos passear ao longo da costa, já a pensar nos pinguins que podemos estudar e adiantar logo trabalho. A praia é caracterizada por calhaus de vários tamanhos (uma parte com um pouco de areia preta), que termina num glaciar (que não nos permite avançar mais), zonas de muita neve e uma parte onde existe neve com cinza vulcânica vinda da Ilha Deception ao lado (que regularmente erupte)

As 24 horas não podiam ter sido mais bem vindas.....Blargodaria (o que significa, em Bulgaro, Obrigado!!!!)

José Xavier & José Seco

3. Projecto PENGUIN: A chegada ao Paraiso


Eu já sabia que esta seria a parte mais desejada por uns e odiada por outros...desejada pois queremos chegar à Antárctica e odiada pois chegar à Antárctica pode ter custos fisicos...e exige andar de navio na passagem de Drake, o que não é pêra Doce. Vejamos...


A passagem de Drake é conhecida por ter algumas das maiores tempestades dos Oeanos, é onde as correntes são mais fortes e as suas velocidades são maiores. Em Ushuaia, deu para perceber que a tarefa não se avizinhava nada fácil...o navio que iriamos tem 42 metros de comprimento (o navio Espanhol Las Palmas) e segundo a minha experiência em navios de 100 metros de comprimento (o James Clark Ross, da British Antarctic Survey), deu para me aperceber que o navio iria abanar bastante. E quando o José Seco se pôs a comparar o Las Palmas com os barcos atrás dele (infelizmente eram cargueiros, navios gigantes para turistas), deu para perceber que podiamos estar numa carga de trabalhos...muito mais pois o José Seco nunca esteve num navio em alto mar.

O pessoal do navio Las Palmas foram 5 estrelas (muito obrigado Santiago, David Atienza e colegas!) e a nossa habituação ao navio foi rápido. Santiago Garcia (2 comandante) disse-nos logo qjá ue iriamos nessa noite (Sabado, dia 10 de Dezembro) pois a previsão dizia que tinhamos uma tempestade a chegar num periodo de horas...saímos do porto de Ushuaia às 0 horas de Domingo

Foi-nos logo atribuidos uma cama, o simpático Comandante Enrique Valdez Garaizabal deu-nos as boas vindas, Sr. José deu-nos informações gerais de como o navio funcionava, o Médico Manuel Prego informou-nos o que tomar em caso de enjoo (e como o prevenir) e o resto viria com o tempo...e veio! Com a minha experiência prévia, o truque é tomar comprimidos para o enjoo 2 horas antes de sair do porto e passar todo o tempo deitado, a ler ou a dormir...as primeiras 24 horas são sempre criticas... que o diga o José Seco:


“Saimos do porto, a viagem ia tranquila, para previnir tomamos 2 comprimidos! Um dos efeitos secundarios dos comprimidos é dar sonolência! Quando fomos para a cama ainda o mar estava flat, tudo tranquilo! A meio da noite acordo com uma grande vontade de ir “mudar a água às azeitonas” (ou seja, ir à casa de banho) só que por esta altura já estavamos a atravessar o Drake! O mar tinha-se transformado, o barco abanava por todo o lado! Parecia que a minha cama estava assente numa mola, como aqueles brinquedos nos parques infantis, que me fazia oscilar em todas as direcções. Agora entra o dilema, aguentar e sobreviver ou arriscar a ir à casa de banho, e possivelmente ficar mal disposto. Infelizmente o Drake ganhou 6 a 0! Ao fim da segunda noite o Médico veio ter comigo e deu-me uma vacina para equilibrar as contas! A partir dai tudo foi mais tranquilo! Nada fácil isto de chegar à Antárctica!”

No meio disto tudo ainda deu para ter as primeiras sensações de chegar ao ares gelados da Antárctica. Eles veêm em poucos pormenores...o ar mais frio, o José Seco viu o seu primeiro iceberg e os primeiros pinguins a mergulhar na água....

Após 2 dias e meio de viagem chegámos a King George Island, à base Argentina Jubany, para deixar material e recolher 2 colegas alemães da AWI. O vento estava forte e só recebemos os 2 colegas alemães a bordo. Eles ilustravam bem como fazer ciência polar é dificil...tudo lhes correu mal, ou lhes faltou bom tempo, ou houve um problema com os aparelhos, e em 6 semanas tiveram 5 dias bons de trabalho. Fustante, disseram eles com um sorriso estampado na cara... “isto da Antárctica é assim! Fazemos o nosso melhor, desejamos sorte com o tempo mas desta vez não foi nada fácil!”... Deixamos estes 2 colegas Alemães na Base Chilena Frei perto do Aeroporto.

24 horas depois estavamos em Livingston Island....


José Xavier & José Seco

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Há sempre uma primeira vez...

É verdade...há sempre uma primeira vez! Não esperava estar aqui, agora, a escrever-vos em Ushuaia....a caminho da Antárctica pela minha primeira vez. Eu sou o José Seco, estou a tirar mestrado de ecologia pela Universidade de Coimbra e sou colaborador do Instituto do Mar (IMAR-CMA), dentro da equipa do José Xavier. Faço parte do seu projecto cientifico PENGUIN que faz parte da Primeira Campanha Logística do programa Português ProPolar.






Está é a primeira vez que vou fazer trabalho de campo na Antárctida! Desde o dia em que o José Xavier me falou da possibilidade desta oportunidade única, não houve um dia em que não tenha pensado como tudo será. Como será o ambiente? Como será a base? Como será a viagem? Mas a principal questão foi sempre, como irão reagir os animais à nossa presença? Como será lidar com algumas espécies que só estou habituado a ver nos programas da BBC? Ainda não consigo responder a nenhuma destas perguntas, mas está para breve :))















Agora em Ushuaia já se sente o ambiente do continente branco, os picos dos montes têm neve, há lembranças de pinguins e da Antárctida por todo o lado, os postos de turismo anunciam visitas a ilhas com pinguins! Ate já nos cruzamos por algumas pessoas que têm “cara” de cientistas e andam com t-shirts dos diferentes comités polares!

Agora falta só falta percorrer um pequeno passo até Livingston Island...