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Regressei da Antárctica há semanas mas sinto que ainda estou lá quando acordo. O som das ondas do mar polar, a beleza rara dos icebergues, a curiosidade dos pinguins... elas ficam na memória por muito tempo.Desta vez, foram 8 semanas onde estive num cruzeiro científico a bordo do navio James Clark Ross a fazer ciência polar marinha, dentro do Ano Polar Internacional (API), um programa cientifico e educacional sobre os pólos.
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Este programa reúne mais de 50 000 cientistas de cerca de 60 países de todo o mundo. Neste cruzeiro foram 26 cientistas de países de todo o mundo, incluindo o Reino Unido, Estados Unidos, Dinamarca, Eslovénia, Alemanha e claro, Portugal. O nosso país têm cerca de 20 cientistas a trabalhar no pólos e está a participar neste programa pela primeira vez na sua história e conta com o apoio e colaboração de numerosas instituições educacionais portuguesas.Como Português foi uma aventura polar constante.
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O mais espantoso é perceber como o tempo voa. Sempre é verdade quando se diz que quando se está a fazer o que se gosta, a noção do tempo se altera para acelerar a velocidades próximas à da luz.Eu tive a oportunidade única de investigar como o Oceano Antárctico pode ser afectado pelas alterações climáticas. Como? Estive a recolher amostras de 3 áreas bastante diferentes dentro do Oceano Antárctico (a sul junto ao Continente Antárctida no meio do gelo, no meio do Oceano Antárctico sem gelo e na fronteira do Oceano Antárctico com águas mais quentes a norte) e caracterizar que animais vivem nestas áreas. Geograficamente, estive no Mar de Weddell rodeado de gelo e fui até a norte da Geórgia do Sul.
Isto é muito interessante pois até agora, muitos estudos têm investigado partes do Oceano Antárctico e assume-se que os animais que aí vivem estão distribuídos por todo o lado. Nós já tínhamos indícios que pinguins, focas e baleias se alimentavam de espécies diferentes mas faltava confirmar se isso devia-se a eles estarem a alimentar-se em áreas diferentes ou aos pinguins ou focas escolherem aquilo que querem comer. Assim, usei vários tipos de redes de pesca para estudar o que existe no Oceano Antárctico nessas diferentes áreas e a diferentes profundidades. Os resultados preliminares mostram que existem reais diferenças de abundância de animais (muito óbvio nos peixes) de acordo com a latitude, o que nos leva a crer que caso as águas do Oceano Antárctico aqueçam, diferentes espécies podem ser mais afectadas e não todas ao mesmo tempo como se suponha até agora. Ou seja, deixou todos os cientistas fascinados!!!!!Já fui à Antárctica 5 vezes, e todas foram muito especiais.
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Desta vez teve a particularidade de ter estado pela primeira vez na vida num navio onde vários dias estive rodeado de gelo. Imaginam ter o mar todo à vossa volta todo branco, rodeado de icebergues gigantes e gelo? Sim, tirei fotos e tentei recordar tudo ao segundo na memória mas nada se compara a estar lá ao vivo. Mais, muitas vezes vi o nascer do sol, com cores nunca vistas, com albatrozes e baleias a fazer-nos companhia. Numerosas vezes as baleias andavam em redor do navio. Aí, tive a sensação de os animais estarem a olharem para nós e a perguntar "Quem são vocês?". Era como estivesse no Zoomarine mas desta vez eram os animais a nos observar e a ficarem fascinados. Momentos maravilhosos, esses...Neste cruzeiro, tive também ocasiões de ir a terra, algo que é raro nos cruzeiros científicos pois andamos sempre muito atarefados. Estive na Ilha Signy, onde o Reino Unido tem uma base científica. Ai estive com amigos cientistas Ingleses e Japoneses que trabalham com pinguins. Conversamos muito sobre os pinguins e claro estive com os elefantes-marinhos e lobos-marinhos. Como eles raramente vêem pessoas, é muito fácil estar próximo deles.
A segunda ocasião foi na Geórgia do Sul, em Grytviken. Foi num dia magnífico, sem vento e com temperaturas amenas para a Antárctica. Tive a oportunidade de estar com pinguins-rei, visitar a antiga estação baleeira e de prestar homenagem ao Sir Ernest Shackleton, um verdadeiro explorador polar, junto à sua sepultura.Ainda recentemente senti que, ao acordar, ainda estava na Antárctica. Na verdade, viajo lá todas as noites...
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