segunda-feira, 14 de abril de 2008

REFLECÇÕES SOBRE A VIAGEM













Regressei da Antárctica há semanas mas sinto que ainda estou lá quando acordo. O som das ondas do mar polar, a beleza rara dos icebergues, a curiosidade dos pinguins... elas ficam na memória por muito tempo.Desta vez, foram 8 semanas onde estive num cruzeiro científico a bordo do navio James Clark Ross a fazer ciência polar marinha, dentro do Ano Polar Internacional (API), um programa cientifico e educacional sobre os pólos.



Este programa reúne mais de 50 000 cientistas de cerca de 60 países de todo o mundo. Neste cruzeiro foram 26 cientistas de países de todo o mundo, incluindo o Reino Unido, Estados Unidos, Dinamarca, Eslovénia, Alemanha e claro, Portugal. O nosso país têm cerca de 20 cientistas a trabalhar no pólos e está a participar neste programa pela primeira vez na sua história e conta com o apoio e colaboração de numerosas instituições educacionais portuguesas.Como Português foi uma aventura polar constante.




O mais espantoso é perceber como o tempo voa. Sempre é verdade quando se diz que quando se está a fazer o que se gosta, a noção do tempo se altera para acelerar a velocidades próximas à da luz.Eu tive a oportunidade única de investigar como o Oceano Antárctico pode ser afectado pelas alterações climáticas. Como? Estive a recolher amostras de 3 áreas bastante diferentes dentro do Oceano Antárctico (a sul junto ao Continente Antárctida no meio do gelo, no meio do Oceano Antárctico sem gelo e na fronteira do Oceano Antárctico com águas mais quentes a norte) e caracterizar que animais vivem nestas áreas. Geograficamente, estive no Mar de Weddell rodeado de gelo e fui até a norte da Geórgia do Sul.



Isto é muito interessante pois até agora, muitos estudos têm investigado partes do Oceano Antárctico e assume-se que os animais que aí vivem estão distribuídos por todo o lado. Nós já tínhamos indícios que pinguins, focas e baleias se alimentavam de espécies diferentes mas faltava confirmar se isso devia-se a eles estarem a alimentar-se em áreas diferentes ou aos pinguins ou focas escolherem aquilo que querem comer. Assim, usei vários tipos de redes de pesca para estudar o que existe no Oceano Antárctico nessas diferentes áreas e a diferentes profundidades. Os resultados preliminares mostram que existem reais diferenças de abundância de animais (muito óbvio nos peixes) de acordo com a latitude, o que nos leva a crer que caso as águas do Oceano Antárctico aqueçam, diferentes espécies podem ser mais afectadas e não todas ao mesmo tempo como se suponha até agora. Ou seja, deixou todos os cientistas fascinados!!!!!Já fui à Antárctica 5 vezes, e todas foram muito especiais.



Desta vez teve a particularidade de ter estado pela primeira vez na vida num navio onde vários dias estive rodeado de gelo. Imaginam ter o mar todo à vossa volta todo branco, rodeado de icebergues gigantes e gelo? Sim, tirei fotos e tentei recordar tudo ao segundo na memória mas nada se compara a estar lá ao vivo. Mais, muitas vezes vi o nascer do sol, com cores nunca vistas, com albatrozes e baleias a fazer-nos companhia. Numerosas vezes as baleias andavam em redor do navio. Aí, tive a sensação de os animais estarem a olharem para nós e a perguntar "Quem são vocês?". Era como estivesse no Zoomarine mas desta vez eram os animais a nos observar e a ficarem fascinados. Momentos maravilhosos, esses...Neste cruzeiro, tive também ocasiões de ir a terra, algo que é raro nos cruzeiros científicos pois andamos sempre muito atarefados. Estive na Ilha Signy, onde o Reino Unido tem uma base científica. Ai estive com amigos cientistas Ingleses e Japoneses que trabalham com pinguins. Conversamos muito sobre os pinguins e claro estive com os elefantes-marinhos e lobos-marinhos. Como eles raramente vêem pessoas, é muito fácil estar próximo deles.


A segunda ocasião foi na Geórgia do Sul, em Grytviken. Foi num dia magnífico, sem vento e com temperaturas amenas para a Antárctica. Tive a oportunidade de estar com pinguins-rei, visitar a antiga estação baleeira e de prestar homenagem ao Sir Ernest Shackleton, um verdadeiro explorador polar, junto à sua sepultura.Ainda recentemente senti que, ao acordar, ainda estava na Antárctica. Na verdade, viajo lá todas as noites...

9 comentários:

Fatima disse...

José Xavier boa noite.
Já sentia falta de um post, e cá está ele, a descrever de uma forma muito colorida o que se passou na expedição.
É bom ir recordando essa fantástica viagem. Pena é que as máquinas fotográficas não sejam ainda capazes de transmitir tudo o que os olhos vêm, mas felizmente que a sua escrita, complementa bem essa falha da tecnologia.
Um abraço

Lygia Maria Couceiro Braga disse...

Olá José!

Finalmente notícias!!!
Bom, é compreensível. Com tanta recolha de amostras, devem ter imenso que fazer e ter notícias novas para nos dar durante muito tempo.
Calculo que deva navegar noites inteiras pelos mares gelados, pois se quem só leu o "Diário de Bordo" e viu as fotografias tem a sensação de ter chegado de viagem há já muito tempo e sente saudades de uma aventura que não viveu, imagino quem por lá andou e desfrutou de tudo, ao vivo e a cores.
Vou ficar à espera de ver aparecer, de quando em quando, alguma informação sobre a evolução dos trabalhos e as curiosidades que forem descobrindo, à medida que vão explorando o material de estudo que trouxeram.
Felicidades para o trabalho e espero que continue a navegar durante a noite por muito tempo (até porque não haverá tempestades!). É sinal que mantem o entusismo com que nos foi enviando notícias.
Vou manter-me atenta às notícias.
Bjs,

Lygia

Jose Xavier disse...

Obrigado Fatima e Lygia!

Estarei um pouco ocupado em conferências mas assim que tiver mais noticias...cá estarei!!!

Beijinhos e bom trabalho

José

Anónimo disse...

OLá José
Quando algo nos toca cá dentro podem passar dias e noites, estarmos a milhas de distância, mas essa recordação não perde côr nem forma,não se deixa de ouvir e principalmente, de sentir!
Gosto imenso de ler os relatos desta sua viagem! Um grande abraço. Helena

Zohra disse...

Olá José!

Desde algum tempo que tenho vindo a acompanhar os posts do seu blog.
Sem dúvida que deve ter sido uma expedição maravilhosa e com paisagens fantásticas.
Qualquer pessoa que leia e observe as imagens do seu blog, sente como se lá estive-se...e é uma sensação única! Especialmente para quem realmente lá esteve.
Fico à espera de mais notícias suas.

Bjos Zohra (Colégio Islâmico de Palmela)

Jose Xavier disse...

Olá Helena e Zohra

Obrigado pelas simpáticas palavras.

Por cá as aventuras continuam.

Estou de momento nos Açores em trabalho e vou a uma escolas para mostrar como foi tudo. O programa educacional LATITUDE60! tem estado em grande.

Manter-vos-ei informadas

Beijinhos

Jose

Fatima disse...

José Xavier boa tarde tudo bem?
Falei de si a semana passada, e do livro da Isabel Alçada....
Um abraço

Jose Xavier disse...

Querida Fatima

Foi a sua mensagem que me fez debruçar-me um pouco sobre o lançamento do livro!

Obrigaod mais uma vez pela inspiração!

Beijos directamente do Açores

Jose

Fatima disse...

Olá José Xavier. Tenho andado tão atarefada que nem tenho vindo ao blog. As minhas desculpas.
Ainda bem que o inspirei, porque o post sobre o lançamento está muito bom.
Fazia falta esse feed-back. Estou desejosa de ler o livro que me há-de chegar às mãos um destes dias......
Um abraço e bom trabalho