quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Retroceder no tempo| Go back in time

A escrever a partir de Signy Island (Antárctica)
Writing from Signy Island (Antarctic)













(Base cientifica Britanica em Signy Island | Signy Island Research Station of the British Antarctic Survery, Natural Environment Research Council)


Foi como um sonho. Apareceu sem perceber, ocupou todos os meus momentos por horas e desapareceu tal como surgiu. Signy Island é assim...um sonho. E como já estou a escrever a partir do RRS James Clark Ross, o navio oceanográfico da British Antarctic
Survey, já a caminho das Ilhas Falklands, após 3 dias “a correr” em Signy Island, parece inglório.













(Gelo a quebrar-se| Climate change in action!)

Signy Island fica nas Orcadas do Sul, junto ao continente Antárctida e fica a 3 dias de navio a sul de Bird Island. Ter ido a Signy Island é como ir a Bird Island em Julho ou Agosto. Retrocedes no tempo. Em Signy Island ainda está tudo coberto de neve espessa, vê-se uns poucos elefantes marinhos curiosos e algumasotárias do Antárctico. O único som vibrante que causa uma alegre impressão é o som dos pombos Cape (também chamados Cape Petrels) que fazem uma autêntica festa na colónia mesmo ao lado da base, nuns rochedos enormes. Como analogia, Bird Island é agora como o calor de Agosto do nosso Verão enquanto Signy ainda está com o calor de Maio. Bird Island transborda de vida agora, com animais por todo o lado, mesmo sendo uma epoca um pouco estranha cientificamente.










(Dizer adeus!| Saying goodbye)

Antes de chegar a Signy Island, repara-se no tom cinzento do céu que me faz lembr

ar a cor nostálgica de o primeiro dia de cada ano quando acordamos um pouco mais cansados do que o normal. As Orcadas do Sul evidenciam força nas suas montanhas com neve que sobrevivem à milhares de anos contra este clima violento, e muitos icebergues, alguns deles já de um tamanho apreciável. O navio abrandou a velocidade em caso de haver um icebergue mais disfarçado que nos possa causar transtorno. No dia seguinte foi acordar às 7 da manhã para tratar de ajudar a abrir a base cientifica de Signy, onde se faz muitos estudos de pinguins (Adélie e chinstrap) e também de lagos e de vegetação.










(Elefante marinho em Signy Island| Elephant seal at Signy Island)

Os 2 dias seguintes foi tratar de pôr os geradores de energia a funcionar, deslocar montes de neve para fora do perimetro da base, e no final abastecê-la de mantimentos para os próximos meses. Foi intensivo mas interessante pois deu-me uma perspectiva do que é preciso numa base cientifica, toda a enorme logistica (temos de saber onde estão todos os pacotes em qualquer altura) e como todos colaboram como uma equipa.










(As despedidas| The last words...)

Foi o mesmo em Bird Island há uma semana atrás. Transportar tudo o que não era necessário para o navio e abastecer a base com comida, material cientifico e tudo o que é necessário para a base funcionar a 100% nos próximos meses. E todo este trabalho para que todos os cientistas possam trabalhar em segurança e realizar os seus estudos...pois tudo isto é por causa da ciência!

Já disse adeus a Signy Island e às maravilhosas 6 pessoas que lá ficaram. Agora, é olhar para o futuro...Ilhas Falklands, Reino Unido, Portugal...e voltar a casa com um grande sorriso!!!

Até já!










(no mar alto junto as Orcadas do Sul| In high seas offshore South Orkneys)

It was like a dream!It came like an unexpected guest, took all your attention for hours and then left just as it arrived... Signy Island is like that...a dream! I am already writing from the RRS James Clark Ross, of the British Antarctic Survey, on our way to the Falkland Islands. And after so busy 3 days, there is a sense of injustice as time flew so fast. Signy Island is part of the South Orkneys, very close to the Antarctic continent, and 3 days from Bird Island, which further north. Going to Signy Island is like going back in time. Whereas Signy Island is still covered with lots of snow and there are numerous icebergues around, at Bird Island the snow is already scarce and animals are everywhere, even if this season is a strange one. We came here to open the Signy Island research Base of the British Antarctic Survey. There will be 6 people this summer working on penguins, lichens and seals. Already said goodbye to the people that stayed there and now I am looking forward to the future, to be in the Falkland Islands, UK and going back home with a huge smile...

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Explicar para perceber| Explain to understand

A escrever a partir de Bird Island, Geórgia do Sul (Antárctica)
Writing from Bird Island, South Georgia (Antarctic)










(Pinguim Macaroni Eudyptes chrysolophus a construir o seu ninho esta semana| A Macaroni penguin Eudyptes chrysolophus constructing its nest this week)

Estou prestes a deixar Bird Island! Sinto que é como deixar um grande amigo após termos passado uns excelentes dias/semanas (nestes caso meses) juntos. Sim, temos uma alegria imensa de termos vivido grandes aventuras juntos, de ter partilhado momentos únicos que nos vão ficar marcados para o resto da vida. Pode ser desde as pequenas coisas como o som dos pequenos passarinhos (chamados pipits) que nos acompanha ao longo do nosso percurso até às colónias de pinguins e albatrozes, da alegria que ver o primeiro elefante marinho de 3-4 toneladas, de pegar novamente num pinguim, de me deixar fazer snowboard nas suas encostas, a apreciar como um pinguim macaroni usa as suas pedras para formar o seu ninho e ouvir o som de “avião” de um albatroz viajeiro a chegar à sua colónia.












(40 000 pinguim Macaroni Eudyptes chrysolophus na colónia em Big Mac| 40 000 Macaroni penguins Eudyptes chrysolophus at Big Mac colony)


Esta expedição cientifica, a mais longa de sempre para um cientista português na Antárctica, foi deveras apaixonante. Cientificamente, foi sem dúvida! Os meus estudos sobre a dieta dos pinguins gentoo durante o Inverno mostram uma diversidade de alimentos muito elevada, talvez demais do que costuma ser. Sabendo que os pinguins gentoo normalmente alimentam-se do camarão do Antárctico (e por veze

s de peixe) e pouco mais, regressam todos os dias a terra e normalmente procuram alimento num raio de 20 km , estes resultados leva-me a supor que as populações de pinguins gentoo na Geórgia do Sul poderão ser afectados com alterações acentuadas de alterações climáticas que podem afectar o sistema marinho.
















(Albatroz viajeiro Diomedea exulans após mais uma das suas viagens pela Antárctica e arredores| Wandering albatross Diomedea exulans after another trip in Antarctic and adjacent waters)


Os estudos de rastreio por GPS de albatrozes viajeiros mostram que existe uma ligação forte entre as areas sobrevoadas (quando estão à procura de alimento) ao longo do ano, com as suas viagens a deslocaram-se cada vez mais para norte (para perto do Brazil), em vez que ficarem em águas do Antárctico. Mais existe uma ligação também associada ao que se alimentam, com uma mudança de dieta de peixe (do Antártico) para lulas (do sub-Antárctico), com estas lulas a aparecerem com espermatóforos (o que significa que se estão numa fase avançada de idade e prontas para se reproduzir). Tudo isto, neste Inverno....

















(Albatroz de sobrancelha preta Thalassarche melanophrys| Black-browed albatross Thalassarche melanophrys)

Mas tal como quando alguém muito querido nos deixa, existe uma sensação de nostalgia que se transmite com a sensação de “nunca mais vou viver estes momentos contigo.” Pelo menos neste contexto, com estas pessoas, com estes animais, com estas questões cientificas por responder...

Para perceber o quanto importante Bird Island é, nada melhor do que a mostrar a pessoas que nunca a conheceram. Dizer-lhes que o seu humor é único, que os seus albatrosses preferem voar o longo dos seus montes , que os elefantes marinhos só aparecerem a partir do fim de Setembro, que os pinguins Macaroni agora são cerca de 40 000 e são só os machos (as fêmeas veem a caminho), que os albatrosses sooties voam aos pares, reproduzem-se em autênticos desfiladeiros e que possuem uma voz hipnotizante.



Quando o navio James Clark Ross chegou, no dia 1 para fazer a “first call”, onde tudo o que é necessário para esta época é enviado para Bird Island (comida, combústivel, material cientifico, literalmente tudo) e material reutilizável (e para ser descartado) é enviado para o navio. Para ajudar temos 15-20 pessoas a nos ajudar. Tive o prazer de levar algumas destas pessoas para obervarem ao vivo a colónia dos “meus” albatrozes, colónia dos pinguins Macaroni de 40 000 pinguins, as colónias dos albatrozes de cabeça cinzenta e de cabeça preta, e os elefantes marinhos e as otárias do Antárctico nas praias. Enquanto explicava alguns pormenores da biologia das várias espécies, onde costumam viver, quando se reproduzem, do que se alimentam, de como é pegar num pinguim,...tudo isso me levou a mais uma vez perceber o quanto fabulosa esta ilha é. Todos os presentes tinham os olhos a brilhar de satisfação....

Mas claro, com o tempo passa, e a vida continua...até breve Bird Island!


I am about to leave Bird Island. It feels like leaving one of our dearest friends after spending a great few days/weeks/months together and now you get the feeling that you might not see them again. Even the little things are special to remember, like the pipits singing to me on my way to the wandering albatross colony, like try to guide me, or the privilige of touching penguins with my own hands, or hearing the sound of sooty albatrosses live! Scientifically, it was a great season. Gentoos had a very strange Winter, feeding on amphipods, which was quite a surprise as they were expected to feed on krill mostly. The wandering albatross GPS work showed that squid play a major role in their diets, but increasingly so as the season develops. It is hard to leave Bird Island. It is like having the feeling of knowing that these moments might not repeat again ever. To understand how important Bird Island is, there was nothing better that showing it to people. On the James Clark Ross first call, I had the opportunity to talk about the science, the fauna and flora of why Bird Island is so special. The great pleasure of showing a colony of Macaroni penguins with 40 000 penguins, or going through a colony of the amazing wandering albatrosses. It is time to leave Bird Island...life must go on...see you soon Bird Island!

domingo, 25 de Outubro de 2009

Ser grande ajuda| Being big helps!

A escrever a partir de Bird Island, Geórgia do Sul (Antárctica)
Writing from Bird Island, South Georgia (Antarctic)

















(Olá!!!!!!!!!!!!! diz o nosso amigo elefante marinho Mirounga leonina| Hellooooooooooooooooooooo says our dearest friend elephant seal Mirounga leonina)

Ser grande ajuda! E muito mais quando se vive na Antárctica. Todo este ambiente gelado, com a água e o ar tão frios , fez com que os animais tenham criado mecanismos de sobrevivência; os peixes têm enzimas que evitam o seu congelamento, os pinguins possuem penas tão juntas umas às outras que a água não penetra (e nunca lhes chega à pele) e até as otárias do Antárctico possuem um pêlo espesso. Mas para mim , o animal que mais me supreendeu este Inverno, foi sem dúvida o elefante marinho do Antárctico Mirounga leonina. Eles têm uma autêntica "pele dupla", seguida por espessa gordura, que os faz estar super confortáveis neste ambiente. Literalmente, eles a Antárctica é o seu Algarve!

Apesar de ter vindo à Antárctica algumas vezes, nunca tinha estado por cá entre o meio de Setembro e Dezembro. É nessa altura que os elefantes marinhos começam a voltar à Geórgia do Sul para se reproduzirem. Este ano foi a primeira vez que vi um macho elefante marinho em Bird Island. Eles são GIGANTES!!!!!! E apesar do seu tamanho, supreendeu-me a sua agilidade. Conseguem mover-se rapidamente, em 180 graus num apice. No mar, comem lulas e peixe em mergulhos, até aos 1000 metros de profundidade, que podem chegar aos 20 minutos!


























(Filhote de um elefante marinho Mirounga leonina no relax| Elephant seal Mirounga leonina pup at South Georgia taking it easy)


Quando digo GIGANTES, é no sentido de serem extraordinariamente grandes, a tal ponto de ficar de boca aberta quando os vi pela primeira vez e pensar "Incrível! Como é possível termos animais tão grandes neste nosso planeta?" Os elefantes marinhos podem chegar às 4 toneladas!!! Se pensarem que um touro tem 500 quilos, bastará multiplicar por 4. Ou seja colocar 4 touros juntos e têm uma ideia do peso de um elefante marinho macho. E um dos aspectos interessantes desta espécie, e entres os mamíferos, é o seu dimorfismo sexual. Ou seja, a diferença entre o tamanho dos machos e fêmeas é grande: os machos são consideravelmente maiores do que as fêmeas. Elas apenas chegam a pesar 900 Kg...assim temos um gigante com uma esposa 3 vezes mais pequena;)


















(Toda a família reunida| All the family together)


A sua população mundial anda por volta dos 650 000 mil, dos quais mais de metade reproduz-se e vive na Geórgia do Sul. Os elefantes marinhos demonstram elegância e nobreza, tal como os elefantes de Africa que vivem em terra. São na sua generalidade calmos e passivos, abrem os seus olhos calmamente quando ouvem um barulho diferente mas não ligam se não nos aproximar-mos muito. Podem passar semanas em terra a descansar e pouco mais. Tudo muda quando entra-se no periodo de reprodução e as hormonas começam a funcionar. Lutam por um território na praia em meados de Outubro/Novembro e aí é possível ver toda a sua ferocidade em máxima força. É incrível ver os machos gigantes a lutarem entre si para terem o seu harem de várias dezenas de fêmeas. Os seus filhotes são muito engraçados, bem pequenos....incrível, sabendo que brevemente vão ter mais de 500 kg;)))

















(Durante o periodo de reprodução é quando os elefantes marinhos Mirounga leonina machos de 4 toneladas são mais agressivos| During the breeding season is when the elephant seal Mirounga leonina bulls are more agressive)

Quem disse que ser gigante e ter uns quilos a mais não é bom;))))

Being big can help you a lot! Even more if you live in the Antarctic. Various animals have found strategies to overcome the ice cold Antarctic waters. The fish developed anti-freeze enzimes, penguins have modified feathers, highly densed placed all around the body so that it does not directly touch their skin (except in their feet, whole circulatory system is highly efficient there makes warm blood coming from the rest of the body to provide warmth to them). But personally, I find the elephant seals Mirounga leonina, with their blubber protection simply amazing! Despite I have been in the Antarctic several times, this is my first time in October. This is when the bulls of elephant seals return to breed at South Georgia. Out of the estimated 650 000 thousand elephant seals in the world, more than half live here. They are gigantic! They can weigh more than 4 tons but their females do not reach 1 ton, making them one of the mammals with higher sexual dimorphism. When breeding, the bulls are capable to being quite agressive to hold their harems. After the breeding season, they return to the calm, relaxed way of living...They are highly adapted to the Antarctic environment, making dives up to 1000 metres depth and holding their breath for 20 minutes, while feeding mostly on squid and fish. And despite being gigantic, they are very agile, very relaxed individuals, being able to move 180 degrees pretty quickly...amazing! Who said that a bit of fat is not good for you;))

domingo, 18 de Outubro de 2009

O peso pesados da ciência| The BIG question

A escrever a partir de Bird Island, Geórgia do Sul (Antárctica)
Writing from Bird Island, South Georgia (Antarctic)

















(Passo a passo, a ciência avança para uma melhor compreensão do mundo...pinguim gentoo Pygoscelis papua ontem na praia de Johnson em Bird Island| Step by step, science contributes to a better understanding of the world...gentoo penguin Pygoscelis papua yesterday at Johnson Beach, Bird Island)


"Como surge aquela luzinha na nossa cabeça a levantar uma questão cientifica?" Demorou muito tempo para conseguir responder a esta dúvida. Sim, de onde surgem, e como surgem, as dúvidas que os cientistas têm? O público em geral, só lhe é possível ver um número reduzido de (bons) resultados e conclusões mas o processo de levantar as questões cientificas para chegar aqueles resultados nunca é claro, e muito menos óbvio...




















(É importante perceber que a ciência anda em várias direcções e nunca sabemos se estamos correctos até obter os resultados| Is it important to recognize that science is carried out in various directions and we never know if we are right until we get the results)


Acho que deve fascinante ser estudante, que quer seguir a via cientifica, hoje em dia. Temos todos os dias novas descobertas, a internet dá-nos acesso a milhões de dados e informações sobre há grande maioria de temas de investigação. No entanto, também deve ser intimidante. Entrar no mundo cientifico, ir às primeiras conferências, associar os nomes dos artigos cientificos às pessoas e ter coragem de ir falar com eles, apresentar os teus primeiros trabalhos em palestras, tudo isso é um desafio e que deve ser obrigatoriamente ser visto como um processo natural. Todos passamos por isso!!!

No início, como estudante Universitário, é quando somos confrontados com as primeiras dúvidas: Primeiro é perceber que decorar já não chega, é preciso perceber. Mais tarde, perceber não chega, é preciso argumentar também, definir os aspectos positivos e negativos da questão, o porquê de utilizar aquele método cientifico e não outro...ou seja, entar no mundo da ciência é questionar quase tudo. Temos de partir obrigatoriamente com umas bases cientificas básicas mas a investigação de ponta (aquela de onde surge grandes avanços cientificos) é quando percebes que estás perto do abismo do desconhecido, e não consegues ver o que está para lá do abismo, e que essas bases cientificas podem estar em causa. Mais, não sabes se os resultados vão ser bons ou maus, só saberás isso só após analisar os resultados das experiências. E é nessa altura dos estudos que finalmente questionamos "então este artigo da famosa revista NATURE estava errado? Como isso é possível?" Ser crítico e avaliar cada estudo detalhadamente, levantando questões, é fundamental para um cientista...

















(Porque será que os pinguins gentoo Pygoscelis papua dormem? ou estará apenas a descansar?| Do gentoo pinguins Pygoscelis papua sleep or is he just resting?)

Para se perceber como se faz ciência o fundamental é entrar em projectos cientificos em força, o quanto antes. Eu começei no 3 ano do curso e fez toda a diferença. Ao entrar em projectos cientificos, com a recolha de dados seguindo uma medotologia especifica, começa-se a perceber que recolhendo os dados daquela maneira vai-nos ser possível responder aquela questão. Parece simples mas não é. Só a experiência diária é a solução.

Quando se está a fazer um projecto de doutoramento, muitas das questões vêm através do supervisor. Aliás, para mim um estudante de doutoramento é aquele que tem tempo para fazer as experiências daquelas ideias que o supervisor adoraria testar mas que já não tem tempo. Assim, um estudante de doutoramento, com todo o trabalho de laboratório, e de recolha de dados no campo, adquire um número de métodos e técnicas, há medida que recolhe dados importantes para responder às questões que se tinha proposto. E tem a tese feita....


















(E quem diria que um pinguim se comporta como um cãozinho quando tem comichão?| And who would have thought that penguins behave very similar to dogs?)


O interessante é que é durante este processo que surge a luzinha da ciência: " Se estou a estudar o comportamento de tubarões quando se estão a reproduzir na Primavera, como será depois de se reproduzirem? Se as alterações climáticas afectam a dieta dos pinguins, como posso provar que isso pode dever-se não há disponibilidade de alimento mas à uma possível competição com baleias? Se utilizei a enzima X para compreender a sua relação com a digestão em peixes de água quente, como será com os peixes de água fria, ou em lagos em vez de os oceanos? Se estou a estudar a doença de Alzheimer, será melhor usar aquele gene que ainda ninguém utilizou com aquela nova técnica? " As questões levantam-se à medida que vais respondendo aquela a que te tinhas proposto. Mais, começas a perceber que as questões nunca param de surgir... depois acaba ter de prioritizar aquelas ideias que são mais importantes responder agora!

Bem vindos ao mundo da ciência...

How does a scientific question arise? It took me some time to reply to this question. Indeed, only at the University I was able to provide a reliable answer. The general public only has access to some (good) studies and conclusions but how do scientists come with the scientific questions and methods...hummm this is not straightforward. At the University, we are confronted by the first queries. You firstly realize that memorizing facts is not enough. Later on, it is necessary to understand and argument the different points of view. Getting into the world of science means questioning almost everything. Surely, it is important have in mind the basic scientific concepts but cutting edge science is when you question almost everyting...is like being close to an abyss and trying to look over it without falling. Only by applying a certain method and assessing the results, it is possible to know if you were right or wrong. Most of the scientific ideas comes while collecting process of the data to answer previous questions...indeed, the start of a scientific career (like PhD) comes from questions created by the supervisor...and the questions will never stop...welcome to the world of science!!!

domingo, 11 de Outubro de 2009

O Sol| The Sun

A escrever a partir de Bird Island, Geórgia do Sul (Antárctica)
Writing from Bird Island, South Georgia (Antarctic)

















(Todos gostamos do sol. Pinguins gentoo Pygoscelis papua na sua casa ao sol| Everyone loves the sun. Gentoo penguins Pygoscelis papua at home in the sun)


O sol, o sol, o sol...estou sempre a falar do sol. De certeza que os nossos genes portugueses têm registado a sua importãncia no meio das citosinas, timinas, adeninas e guaninas do nosso ADN. Quantas vezes fomos apanhados a falar dele quando chove por mais de um dia? E quando ele brilha....algo dentro de nós, na nossa essência, fica melhor...a nossa alma sorri tal como rever um bom velho amigo a dizer "olá!! sempre bom ver-te novamente!"! Mas é assim tão importante? Possivelmente não é preciso ir para a Antárctica para perceber isso...ou talvez até é!

















(Otária do Antárctico Arctocephalus gazella a deliciar-se na neve ao sol| Antarctic fur seal Arctocephalus gazella lying in the sun on a snowy beach)


Por todo o mundo, Portugal é conhecido pelo seu bom clima. E acreditem, é verdade. Sim, chove mas o bom tempo é parte do quotidiano. No Algarve, por exemplo, é quase todo o ano e os adoráveis residentes "portugo-estrangeiros" o sabem. O sol, está sempre quase presente, e mesmo que chova, ele aparece quase sempre no mesmo dia. O valor a que damos ao nosso clima deve-se a felizmente termos uma alegre sazonalidade. Percebemos (pelo menos, por enquanto) quando começa a Primavera e progressivamente notamos o calor a convidarmos para uns mergulhos no Verão, o início da escola com as primeiras chuvas e aqueles adoráveis dias de Inverno a ver chover lá fora e nós no quentinho...mas em todo o ano, quando o Sol aparece, faz toda a diferença no dia...

























(Num dia de sol ameno parece estarmos numa ilha tropical, se não fosse os albatrozes de cabeça cinzenta Thalassarche chrysostoma a dizer-nos que estamos no Antárctico| In a sunny warm day it seems that we are in a tropical island...if the grey-headed albatrosses Thassarche chrysostoma were not in the photo...)

E nota-se em todos os sorrisos de toda a gente, quando o sol volta depois de um dia cinzento...em Inglaterra é tão obvio. Passa-se dias, e até semanas, sem ver o ver. Cheguei ao ponto de não ligar ao tempo. Ligava o automático (e ainda faço isto quando estou em Inglaterra) e pronto: duche, vestir, pequeno almoço, pegar na bicicleta, atravessar Cambridge e chegar ao instituto quase (sempre) ensopado da tanta chuva.




















(Cambridge num dia de sol|Cambridge on a sunny day)


E como tinha como referência o bom sol português, para mim se chove-se significava jogo de futebol cancelado. No primeiro jogo em Inglaterra não apareci pois logicamente estava a chover; "jogo cancelado", pensei eu. Na Segunda-feira seguinte os amigos todos a perguntar se eu estava bem e a questionarem-me porque não tinha aparecido. Resposta deles após a minha justificação com um sorriso : "José, se os jogos fossem cancelados quando chovesse, não haveria campeonato que terminasse em Inglaterra:))))". E assim, conhecei a perceber que, esteja a chover ou não, a vida continua...mesmo que seja a jogar à bola à chuva!


















(Para mim jogar futebol a chover era como convidar alguém a dar um mergulho nestas águas| Playing football in a rainy would be as ridiculous as inviting anyone to go for a swim in these pancake ice waters in your small swimming suit)


Nos dias de sol Inglaterra, particularmente nos dias quentes de Verão, é algo que deve ser registado. Toda a gente põe uma T-shirt de Verão, protector solar, tudo para um bom piquenique e todos para o parque ou junto ao rio para aproveitar ao máximo o sol. E os parques ficam a transbordar de pessoas, como houvesse um concerto de música...tão bom esses dias de Verão!


Aqui, na Antárctica, o sol também aparece mas não sempre como as fotos fazem parecer. As fotografias que tiro são sempre obtidas quando existe boa luz mas pode dar uma ideia contraditória sobre o clima. Em Bird Island, as estatísticas dizem que temos 10 dias de sol por ano, o que não acredito. Temos muitos mais dias de sol, diria pelo menos 1 dia por semana vemos o sol e dá-nos para sobreviver até à próxima semana. E tal como em Inglaterra, se há sol toda a gente quer aproveitá-lo e nota-se uma sensação de excitação no ar: nós, os cientistas, estamos felizes, as focas estão felizes, os albatrozes ainda mais alegres, os pinguins a fazer mais festa do que o costume. E foi aqui que dei ainda mais valor ao sol.

















(Elefante marinho Mirounga leonina a relaxar ao sol| Southern elephant seal Mirounga leonina lying in the sun)

Por alguma razão se diz que o sol é uma das fontes necessárias para a vida...mas para lhe dar o valor que merece é preciso que tenhamos também uns dias de chuva;) Assim, tento aproveitar todos os dias na Antárctica, com chuva ou neve (é tao bom sentir as gotas de água, ou flocos de neve, a bater-nos levemente na cara), nublado ou nevoeiro,... e principalmente, todos os magníficos dias de sol.

Sun, sun, sun...we are always talking about the sun. Surely our genes must have some encryption of its importance in our DNA. How many times have we been caught talking about the weather? And when the sun shines, it has such an effect on us! In UK, it rains a lot but when the sun comes through the clouds everyone get their Summer clothes, a nice drink from the closest Pub and go directly to the park. It took me some adaption to english weather. For me playing football with friends in rainy days was out of the question until it was clear that life should carry on, on rainy or sunny days. In the Antarctic, the same applies. Being cloudy, rainy, foggy or any other type of less inviting weather to go outside, it does not matter. There is work to be done...but on sunny days, something inside us clicks to remind us. When it is sunny, the Antarctic is simply even more special. On those days, far more than the 10 sunny days per year mentioned by the statistics for Bird Island, everyone is happy: the scientists, the fur seals are more friendly, the penguins seem to be in a party mood and the albatrosses even more excited. For some reason, it is said that the sun is essential for life...I say it is essential for your mood in the morning too;) For us to give it the importance it deserves, we also need rainy, cloudy days in our lives. Indeed, I realized that the secret is to enjoy each day as it comes, cloudy or foggy, snowy or pouring down with rain, ...but always with an eye for those special sunny days.