domingo, 15 de janeiro de 2017

No paraíso da Antártida o tempo voa – Times flies




Acordamos às 3 da tarde todos os dias. Vida boa? Na verdade, o dia-a-dia a bordo de um navio cientifico, como o RRS James Clark Ross, é muito exigente, intensivo mas também muito entusiasmante. Mas há muitos detalhes da vida de “marinheiro” que vos poderão escapar. O primeiro grande detalhe é que o navio está SEMPRE em movimento... para a esquerda e direita... para nós, humanos, que fomos feitos para estar com os pés assentes na terra,  é bem cansativo.


 Nos dias de tempestade, dormir torna-se ainda mais difícil, e há a possibilidade de se ficar mal disposto. Não é nada fácil trabalhar assim. Outro ponto importante é que trabalha-se em turnos de 12 horas (no nosso caso entre as 4-5 da tarde às 4-5 da manhã, que dá a excelente oportunidade de ver o pôr e o nascer do sol). Ou seja, se não estamos a dormir, estamos literalmente a trabalhar. Muitas vezes quando acordamos, e vamos tomar o nosso pequeno almoço, encontramos vários colegas que estão prontos para ir para a cama, pois o turno destes está a acabar.


            Devido aos elevados custos das telecomunicações nesta parte do mundo, a bordo do James Clark Ross, a internet é apenas possível aceder por 4 computadores numa sala. Ou seja, para saber as notícias do mundo, conseguir colocar os nossos artigos no blog e/ou facebook, ou fazer alguma pesquisa, temos que usar um destes 4 computadores. No entanto, é possível aceder ao email por wireless em algumas partes do navio, o que facilita imenso para conseguir responder a emails. Aos fins de semana, dá para ouvir o relato de futebol do Reino Unido, através da BBC, o que torna os Sábados e Domingos diferentes dos restantes dias da semana. 



            A comida a bordo é excelente e ajuda imenso ter 3 refeições de qualidade, que nos ajuda a manter os níveis de energia equilibrados. Telefonar para casa não é simples (nem barato), sendo necessário comprar um cartão especifico para telefonar e rezar para termos 1 de 2 linhas abertas para podermos fazer a chamada. Um dia resume-se a: acordar às 3 da tarde, pequeno almoço logo depois. Ir ao local de trabalho (UIC – Underway Instrument Control Room), onde todos os cientistas se reúnem para trabalhar caso não estejam nos laboratórios, para saber o que se está a passar. Se houver um adiantamento do plano de trabalho e houver um instrumento que está prestes a ir para a água, que te será útil, fica-se já por ali. Na maioria dos casos, oferecemos a nossa ajuda, que foi sempre bem recebida, e que se traduzia em começar a trabalhar mais cedo. Mas vale sempre a pena, pois ter o privilégio de estar a trabalhar com estes colegas, aprender a colocar e recolher estes aparelhos, ajudar outros na identificação de espécies e do tratamento das amostras, há que aproveitar. Amanhã somos nós a precisar de ajuda e todos terão a mesma disponibilidade. Reserva-se o jantar para um possível intervalo entre colocar e recolher as redes de amostragem (normalmente comíamos entre a meia-noite e as 2 da manhã). 

 











De resto, todo o tempo é passado entre o UIC, os laboratórios e o deck onde se trabalha com as redes. Por volta das 4 da manhã (o sol já nasceu há mais de 1 hora), a análise do que se obteve nas redes (primeiro pesa-se o material total obtido, identifica-se  tudo o que se conseguir à espécie (e pesa-se esse componente), e mede-se/pesa-se/avalia-se o estado de maturação/sexo (caso se aplique) cada individuo (ou uma sub-amostra). Depois é recolher o que se precisa para análises futuras de metais pesados, ácidos gordos, genética, fisiologia, tudo dependendo dos objetivos propostos de cada projeto. Normalmente, por volta das 6-7 da manhã estaremos na cama...para tudo começar novamente umas horas mais tarde, por volta das 3 da tarde....próximas notícias virão de MUITO mais do sul. Até já!!!!






We wake up at 3pm everyday! Good life? Truly speaking, the daily life onboard of a research cruise, like the James Clark Ross, is very demanding and exciting, and possesses a group of details that may escape to some of you. The first big detail is that the ship is ALWAYS moving, to the right and to the left, which can be tiring. In stormy days, when big waves are common, sleeping is even harder, with the extra problem of sea sickness. It is not easy working in such conditions. Another important point is that we work on 12 hour shifts (in our case between 4-5 in the afternoon until 4 or 5 in the morning everyday). This means that, if we are not sleeping, very likely we are working. Everyday i tis usual finding colleagues that just woke up when we are ready to go to bed...

            Due to the high costs, internet onboard of the James Clark Ross is only accessible through 4 computers in one room. In better words, to know about the news of the world, be able to update our blog or facebook page, or simply be able to do some research online, only those 4 computers are acessible to all scientists.   However, it is possible to access our personal email account through our personal computer, via wireless, which is highly welcome to help us deal with the numerous emails we have daily. At the weekends, we do manage to hear the football on BBC radio 5 Live (during the week we listen mostly to BBC Radio 2), which make the weekends different from the other days of the week. The food onboard is great, important to keep the levels of energy. Calling home is not simple (nor cheap), being necessary to buy a specific phone card. One day comprises of waking up at 3pm, go to the UIC (Underway Instrument Control Room) where all scientists go, if not in the laboratories, to know what is going on. Usually, in > 90% of the cases, we stayed and start working and another team needed some help or support. For us it is great, as we learn so much from other teams, and sooner or later, we would need some help/support too. We reserve our dinner for around 12 up to 2am, depending when can we eat. Our time is send deploying or retrieving the nets, analysing the catch or putting some data into the PC. Ata round 4am, the analyses of the catch (total weight, identifications of the species caught, weight per species (in some cases we also measure total length, maturity stage and sex)). We also collect samples for the various ongoing studies we have (Trace metals, fatty acids, genetics, physiology...). By 6-7am we plan to be in bed...and then everything starts again....next news will come from MUCH further south. Stay tunned!

Jose Xavier & Jose Seco

 

sábado, 7 de janeiro de 2017

A Lula mais especial| The most special squid!!!

















Estamos agora a caminho de uma área mais fascinante dos Oceano, a Frente Polar Antártica (onde as águas frias do Oceano Antártico se juntam às águas mais quentes a norte), no congelador já temos amostras muito interessante, da Geórgia do Sul, que nos vão ajudar a perceber como funciona a cadeia alimentar Antártica. Em particular, o impacto que os de metais pesados podem ter no ecossistema marinho desta região da Antártida. Recolhemos desde amostras de água, a peixes e lulas, passando por diversas espécies de zooplâncton.


A água, recolhidas pelo equipamento CTD (que regista dados de condutividade, temperatura e densidade da água a diferentes profundidades), vai nos dar um valor base de contaminação para esta região.  Recolhemos alguma das espécies de camarão (ex. Euphausia superba, Euphausia frigida, Euphausia triacantha e Themisto gaudichaudii), lulas (Galiteuthis glacialis, Psycroteuthis glacialis, Sloczarcykovia circumantarctica) e de peixes (ex. Gymnoscopelus braueri, Gymnoscopelus nicholsi e Protomyctophum bolini) mais abundantes nesta região foram recolhidas  durante a Western Core Box (uma área de estudo importante há muitos anos junto à Geórgia do Sul). Recolhemos estas amostras utilizamos diferentes tipos de rede, normalmente à noite pois é mais fácil capturar, pois os animais não conseguem ver a rede: quanto menor a malhagem (tamanho dos buracos da rede), mais pequenos são os organismos. 

 










Assim, usamos as RMT8 (Arrastro retangular pelágico, o que significa basicamente uma rede retangular que tenta apanhar animais no meio da (coluna de) água) principalmente para os camarões ou zooplâncton (pequenos organismos marinhos). Com a rede RMT25, com malhagem maior, esperamos apanhar mais peixe e lulas. No primeiro dia deste ano novo tivemos o privilégio de apanhar uma lula muito especial, Histioteuthis (or Sigmatoteuthis) eltaninae




Esta lula é especial pois já a conheço há quase 20 anos, mas só através dos seus bicos que encontro nas dietas dos pinguins, focas e albatrozes. Finalmente hoje, conseguimos ver um individuo desta espécie inteiro pela primeira vez! Sorriso gigante! Encontra esta lula foi como conhecer pessoal os escritores dos nossos livros de infância. Todas estas amostras são também de particular interesse aos nossos colegas cientistas Ryan Saunders, Sophie Fielding, Stacey Dornan, Rob Blackwell (Reino Unido) e Gabi Stowasser (Alemanha), que estão também a fazer estudos com algumas destas espécies. Há também outras equipas que estão a usar outras redes: o BONGO, MUDL e MOCNESS (malhagem pequena) podem ser usadas em águas de pouca profundidade (ex. BONGO) ou em grande profundidade (MOCNESS) e são ótimas para apanhar organismos pequenos e ainda vivos, excelente para poder-se fazer experiências in vivo (com os animais ainda vivos) em laboratório (utéis aos cientistas Geraint Tarling e Vicky Fowler (Reino Unido), Clara Manno e Elisa Bergami (Itália)). 




Também temos a cientista Angelika Slomska (Polónia) que está interessada em Salpas (organismo gelatinoso chamada Salpa thompsoni) que ainda se conhece pouco... como podem concluir, as nossas noites são extremamente ocupadas, mas sempre muito interessantes!!!! Agora na Frente Polar   espera-mos encontrar mais abundância de animais e espécies completamente diferentes. Entusiasmo é grande!!!! Fica em contato para mais notícias em breve!





We already have a nice group of samples, collected close to South Georgia, to study the Antarctic marine food web, particularly the role of heavy metals in it. The water samples (collected by the equipment called CTD (that measures conductivity, temperature and density and different depths) and different organisms such as the crustaceans (e.g. Euphausia superba, Euphausia frigida, Euphausia triacantha e Themisto gaudichaudii) and fish (e.g. Gymnoscopelus braueri, Gymnoscopelus nicholsi e Protomyctophum bolini) were already obtained at the Western Core Box (an important study area for many years, with numerous cruises of the British Antarctic Survey, close to South Georgia). To obtain these samples we use a wide range of nets, usually at night, when the it is easier to capture the organisms (as numerous species migrate closer to the surface at night). For our research, we use RMT8 (Rectangular Midwater Trawl, with smaller mesh) that can sample the water column very well for zooplankton (e.g. Antarctic krill). The RMT25, which is bigger (with bigger mesh), can also catch faster fish and squid. On the first day of the year, we had the privilege of catching a very special squid, Histioteuthis (or Sigmatoteuthis) eltaninae. I have known this squid for 20 years, but only through their beaks (i.e. the mandibles of the squid) found in the diet of penguins, seals and albatrosses. Finally, I was able to see a complete individual of Histioteuthis eltaninae! I am so happy. It is beautiful! It has photophores around its body, including around its eyes. Interesting enough, one eye is considerably bigger than the other. This is probably to this squid live predominantly in deep waters ( more than 200 meters depth) where the sunlight does not reach. Therefore, having 1 big eye could give an advantage to find prey, find partners and avoid predation. Big smile on our faces!!! All the samples collected are of particular interest, beyond us, to our colleague scientists Ryan Saunders, Sophie Fielding, Stacey Dornan, Rob Blackwell (UK) e Gabi Stowasser (Germany), that also are doing research projects on some of these species. Other research teams are also using other nets: BONGO, MUDL e MOCNESS (all with small mesh) can be used in shallow and deep waters, excellent to catch small zooplankton alive and in good conditions (useful to the scientists Geraint Tarling and Vicky Fowler (UK), Clara Manno e Elisa Bergami (Italy)). We also have the scientist Angelika Slomska (Poland) that is interested in Salps (gelatinous organism called Salpa thompsoni) that is still poorly known but its importance in the Southern Ocean has recently been recognized...as you can conclude, our night have been busy since the new years eve!!! Now we are on our way to another research station in one of the most fascinating ocean areas of the Southern Ocean, the Antarctic Polar Front (where cold water from the Antarctic get together with the warmer waters from the north) where we hope to find a mix of species from Antarctic and sub-Antarctic waters and assess the gradient of trophic interactions and trace levels in this area. Our enthusiasm is high!!!! Keep log on for more news soon...