segunda-feira, 4 de maio de 2009

O Som da Antárctica| Antarctica Sound

A escrever a partir de Bird Island, Geórgia do Sul (Antárctica)
Writing from Bird Island, South Georgia (Antarctic)

Se na Antárctica não há árvores, como se ouvirá o som do vento?

















(Pinguim gentoo Pygoscelis papua a querer-me dar música| Gentoo penguin Pygoscelis papua trying to sing me a song)

Quando me lembro do som do vento, lembro-me logo das árvores à frente da minha janela de casa nos dias de chuva do nosso Inverno Português, onde o som se passeia fácilmente entre as folhas das acácias ou pelas ramas das Oliveiras. O Som é agudo, alarmante e mais importante, está presente, ouve-se!!!!

Eu acho que na Antárctica o som é diferente. O que chamamos de árvores não existe, apenas um arbustos, ou tufos de erva, chamados "Tussock" (Poa flabellata) onde o vento "não se sente". É incrível como nos apercebemos destas pequenas coisas quando notamos a sua ausência...


















(Otária Arctocephalus gazella em cima de "Tussock" a dizer-nos que ouviu alguma coisa|Antarctic fur seal Arctocephalus gazella showing us that heard something)


É lindo um dia sem vento em Bird Island. Raro, logo é precioso. Há quase sempre vento, uma leve brisa ou então, ventos fortes, com rajadas a ultrapassar os 1ookm/h...mas quando o vento pára, é um autêntico paraíso. E são nesses dias que penso no som...a ausência dele. É apenas um silêncio mudo, mas como quem não quer falar. Apenas ouve-se os meus passos a trespassar a neve, ou os sons das otárias a dizer "Bom dia" quando passo por elas....Não se ouve literalmente nada, principalmente agora no Inverno, quando tudo começa a ficar coberto de neve. Nas nossas cidades, vilas ou aldeias, existe sempre um som "humano" presente, seja o carro, a moto, o autocarro...Lembro-me de regressar a Inglaterra após estar aqui e dormir mal devido a estar habituado a dormir sem sons no Inverno Antárctico. Conseguia ouvir o abrir da torneira da casa do lado, o carro a passar na distância,...

























(um filhotes de um albatroz viajeiro Diomedea exulans com um mês de idade. Este, com a vista do seu ninho, deveria cantar todos os dias| A month old chick of wandering albatross Diomedea exulans. With such a view, it should sing everyday!)


Mas adoro este som diferente! Num destes dias, estava a vestir-me com as normais 4 camadas de roupa para sair para fora da base, e vi os fones para ouvir música e tive a repentina tentação de os levar. Nós, os humanos, somos obecados por música e parece que somos uns dos poucos. Umas experiências com macacos mostram que, quando lhes dão a opção entre uma música instrumental, uma canção de Mozart, uma música cantada ou nada...eles preferem nada. Só os humanos possuem uma inclinação natural para gostarmos de música (sem cantar com fins biológicos (ao nível comunicativo, reprodutor ou social), como os pássaros fazem)! Por isso, quando cantar para os pinguins será mais para o meu prazer do que para o deles...

Parei e pensei um pouco. Estar aqui no meio destes sons ao vivo é um privilégio tão grande que o melhor seria aproveitar. Desde aí, os fones ficaram na gaveta e nunca mais os vi desde que cheguei... Para mim, estes sons são música para os meus ouvidos. Os pinguins e os albatrozes a piar, as focas a rosnar, os elefantes marinhos a falar uns ruídos super estranhos. Perder isto, nem pensar...

If there are no trees in Antarctica, how do the winds sounds like? In Europe, the wind sound is sharp, vibrant and most importantly, you hear it! I think the wind sounds differently in the Antarctic. There are no trees, only tussock grass, where the wind finds it harder to go through, and the sound is not the same. In those days when there is no wind, it is so peaceful...only can hear my feet pushing down the snow...almost feel like an instruder in this Antarctic Paradise.

5 comentários:

Lygia Maria Couceiro Braga disse...

Olá José,

Vejo que a aventura continua.
Magnífico o tema de hoje!
Fiquei a pensar um bocado atordoada. Realmente, há pormenores que não avaliamos com muita sensibilidade pela sua excessiva ou permanente presença na nossa vida.
É verdade!
Quando o silêncio nos assalta demoramos um pouco a perceber o que se passa. Mas é um privilégio raro que nem sempre apreciamos.
Percebo isso porque, como sempre vivi maioritáriamente no campo, sempre me fez confusão as pessoas queixarem-se do silêncio da Natureza, quando vivem na civilização.
Votos de continuação de bom tempo e bom trabalho.

Beijos,

Lygia

Fatima disse...

Olá José boa tarde.
Fiquei curiosa com os sons...
E que tal gravar e colocar aqui?
Estou roídinha de inveja de não os conhecer....
Um grande abraço

Anónimo disse...

Mesmo sem muito tempo, vou deixar um "escritinho":)
Eu, que acordo,trabalho, cozinho e me deito com musica, e que adoro ouvir o som das gaivotas, acho que fez a opção certa ao preferir o som da Natureza ao da música.Lembre-se que está no paraíso! :) Que tudo continue a correr bem. Abraço. Helena

Fragmentos Culturais disse...

Olá Zé,

... adorei ler/ouvir este pequeno 'solilóquio' acerca do som e/ou da ausência dele!

Uma descrição muito sensitiva e envolvente que veio ao encontro do que penso e pratico actualmente!

Há momentos para a música, há momentos para o silêncio!

Felizmente o ser humano tem essa adaptabilidade de poder, eventualmente, em determinados momentos conseguir 'fazer silêncio'...

É bom ler-te na vivacidade do que transmites!
E as fotografias são lindas! Animais deliciosos!

Continuação de bem estar e muitas e fantásticas pesquisas!

Um beijo
G.Souto

aka caloira aka lama disse...

Andava eu aqui na net, e vi um pinguim. Lembrei-me de si. Encontrei logo este cantinho.

"Estar aqui no meio destes sons ao vivo é um privilégio tão grande que o melhor seria aproveitar."

Exacto! Sortudo!

As fotos são lindas, como sempre :P

Desejo uma óptima viagem!!

Beijinho Da ilha do Pico ;)
Lisa Vargas