domingo, 6 de setembro de 2009

Como fazer parar o tempo?| How to grasp the moment?

A escrever a partir de Bird Island, Geórgia do Sul (Antárctica)
Writing from Bird Island, South Georgia (Antarctic)

















(Foca leopardo Hydurga leptonyx a aproveitar mais um dia na Antárctica|If seals spoke our language...a leopard seal Hydrurga leptonyx on just another beautiful day in the Antarctic)

Desde sempre, se ouve dizer "o tempo voa quando nos estamos a divertir" e sem dúvida que este provérbio se aplica a mim. Quando paro e reflicto um pouco, fico perplexo de como já passaram tantos meses (estou há 7 meses na Antárctica). Hoje sinto que parece que foi não ontem, mas no dia anterior, que cheguei à Antárctica. Ao vir para a Antárctica, existe um grupo de sensações evidentes:
























(As minhas memórias poderiam ficar assim, apenas uma pincelada de quem já esteve aqui: contornos do corpo da foca leopardo Hydrurga leptonyx no gelo em cima |My memories could be like this, just nuances that something was here: contours of the leopard seal Hydrurga leptonyx above)


1- Na primeira semana, todos têm umas caras de bebés, ou seja, uma querida cara de felicidade sem grandes expressões e com os olhos gigantes sempre abertos a tentar absorver tudo! Aí, como ainda estamos a adaptarmo-nos à nova casa ( e é preciso saber como tudo funciona, que responsabilidades teremos na gestão da base, etc), e a recuperar da viagem (no meu caso de um cruzeiro cientifico excelente mas também muito exigente a todos os níveis), esses dias são excelentes...tudo é novo!!! Tempo para voltar a lidar com os pinguins e os albatrozes, tirar aquelas fotos que gostariamos de tirar aos albatrozes, pinguins e às focas, que andávamos a sonhar há meses ou anos é como um realizar de um sonho! Descreveria esta sensação como "deslumbramento".

























(Filhote de um albatroz viajeiro Diomedea exulans com os seus medalhões de gelo| A wandering albatross Diomedea exulans with its ice medallions)

2- Após o primeiro impacto, e com muito trabalho pela frente, tenta-se racionalizar tudo o que se faz (ex. para passear pela ilha é preciso ter as noções todas de segurança, usar rádio para estar sempre contactável) e organizar tudo. Nessa fase, o tempo realmente voa, pois ou estás a trabalhar ou a dormir. E aí, o ritmo de trabalho de Cambridge, em Portugal ou na Antárctica, parece ser igual e mal tem-se tempo para relaxar. Concentração é a palavra que estou à procura.


















(Filhote de um albatroz viajeiro Diomedea exulans depois de uma tempestade de neve. Reparar que o ninho nem se vê| A wandering albatross Diomedea exulans chick after a snow storm...notice that the nest is totally covered)

3- Após ganhar o ritmo acelerado de estar em trabalho de campo (é preciso estar em forma pois aqui o modo de viajar na ilha é a caminhar por montes e vales) e de saber como a base funciona, entra-se numa fase de trabalho ainda mais intensiva. Esperámos anos para testar estes aparelhos e para estar aqui. Fazer os primeiros estudos com os pinguins e albatrozes é fascinante e apesar de estar super concentrado no que estou a fazer, estamos todos felizes da vida. Sente-se a cada minuto o privilégio estar em contacto directo com estes magníficos animais.



















(A uns cm de distância de um casal de petréis Macronectes halli|A centimetres of a couple of northern giant pretrels Macronectes halli)

4- Apesar de eu ter uma grande variedade de projectos a decorrer ao mesmo tempo todos os meses, a partir do 3-4 mês, começa-se a ficar "adaptado" a todos os processos que estão a decorrer. Por exemplo, agora já me é possível estimar quanto tempo demorará colocar os aparelhos GPS nos albatrozes cada mês (muito importante pois se vejo na previsão metereológica que tenho 2 dias para colocar esses aparelhos, agora posso dizer com segurança "tudo bem, temos tempo. Vamos só amanhã à tarde!". No primeiro mês, desconheciamos a duração das viagens dos albatrozes estavam a fazer este ano, e aí não arriscava nada, e iria para a colónia logo no início do primeiro dia possível, o mais cedo possível. Confortável é a palavra certa.




















(E em alguns dias de tempestade nem vale a pena mexer uma pena...petrel Macronectes spp. coberto quase totalmente de neve| And in some snow stormy days it is better not even moving a feather....giant petrel Macronectes spp. almost totally covered with snow; Photo from Ewan Edwards)


5- Existem alturas que paro, reflicto para pensar e sinto que é incrível estar aqui, agora. Gostaria de congelar estes momentos com todas as sensações que contem e pô-las no bolso para mais tarde recordar. E não consigo parar o tempo, apenas um pouquinho só, e tentar sugar tudo o que estou a observar ao máximo. Aquela foca leopardo que apareceu na praia hà 2 dias foi um desses casos. Deu para estar cara a cara com ela e ficar minutos a vê-la...Tirar fotografias é excelente pois regista aquele momento para recordar mais tarde mas.... Hoje de manhã, num daqueles dias típicos de Inverno, fui ligar os gerador de energia (pois hoje cozinho eu e uma das funções é essa) e ao caminhar reparei na praia uma ave e uma foca a caminhar calmamente entre a neve e algumas poças de água, como quem anda a brincar entre elas.... lindo, lindo de se ver. Este momento não exigia uma fotografia, pois estava mau tempo, mas a sensação de tranquilidade que me transmitiu é indiscritivel...fez-me sentir que hoje é Domingo! Brilhante! Acho que fiquei uns 10 minutos ao frio e ao vento (está muito vento forte hoje!) só a deliciar-me com o momento...


6- Acho que começo a estar na fase de "daqui a pouco tempo já não estarei aqui!" pois só faltam 2 meses, e começo a ter aquela sensação de "esta vai ser a última vez que vou fazer isto". Não fico triste pois acho que este é um processo natural das coisas e continuo com um grande sorriso. Na verdade, para estar aqui, as saudades de toda a família, dos grande amigos, dos momentos perdidos que nunca se irão repetir (os aniversários, o nascimento dos filhotes dos nossos grandes amigos, os dias clássicos de ondas perdidas, o estar com toda a familia junta naquela ocasião especial...), foram um desafio e vai ser bom estar com todos novamente e mostrar-lhes o paraíso que a Antárctica é. A alegria mantem-se e deixa-me feliz saber que quando for embora, levarei mais um pouco da Antárctica comigo...mas mais importante que isso, saber que contribui um pouco com a minha ciência para que as aves e as focas possam continuar a passear entre as poças de água felizes da vida...

We have a saying in Portugal (and possibly everywhere in the World) that says "Time flies when you are having fun!" and definetely that applies to me. I has been 7 months since I arrived in Antarctica. It does not seem it was yesterday that I arrived here, but just the day before that! Coming to Antarctica we have huge number of sensations. The first one is being amazed by everything. We spend the first days looking like babies (not many expressions in the face, eyes wide open, absorving everything) and trying to get into rythm mode. As we have to do loads of fieldwork, we have to get our bodies used to walking long hours up and down the hills in cold temperatures, and prepare all the science. During this time is also, the opportunity to take that albatross or penguin photo that you spent months or years dreaming about and you are saying "HUUAUUU" all the time. Then the fieldwork kicks in and the work is very intensive, and being in Portugal, Cambridge or in the Antarctic, it seems not t omake such a difference. You are working full on or sleeping. Despite having numerous science projects at the same time, after a few months, it is possible to be confortable on how things are going. For example, when deploying GPS loggers, I know that the wandering albatrosses have been doing this year and the approximate time needed to deploy devices. If there is a 2 days of good weather, I know now that we have time enough to do them (in May I didn´t and we would go as early as we could to try and deploy them). Now, with 2 months to go, I stop sometimes and reflect on the amazing times I have had here. I would love to freeze some of those moments (with all the feelings it caused in me) that I could put them in my pocket and take them out to make me smile whenever I needed them. Today, while going to put the generator on, I saw a giant petrel just walking nicely between the snow and the water pools and it was beautiful to see. A photo would not have worked (the sky is dark, the giant petrel was far away) but it felt so beautiful to see...Starting to have the feeling of "soon I will be gone!" although there are still 2 months to go. I am not sad and surely I will keep a big smile. Indeed, it has been hard missing all the family adventuras and reunions, the birth of your best friends son, the classic surfing days,...and it will be great to see them all again and show everyone how amazing the Antarctic is. I surely will take a bit of Antarctica with me wherever I go, and is such a great feeling that my science will contrubite in such a way that the seals and the petrels will continue walking between the snow and the water ponds happily....

domingo, 30 de agosto de 2009

Existe diferenças em 10 anos? Is there differences in 10 years?

A escrever a partir de Bird Island, Geórgia do Sul (Antárctica)
Writing from Bird Island, South Georgia (Antarctic)

















(É bom ver os filhotes dos albatrozes viajeiros Diomedea exulans de boa saúde outra vez| Is good to see the chicks of wandering albatross Diomedea exulans once again)


Será que a ciência e o modo de viver mudou muito em 10 anos em Bird Island? Interessante que em 1999 e 2000 quando estive aqui, tudo era novo para mim...o contacto directo com os animais, o fascínio da neve, o modo de viver numa base cientifica. Quando regressei em 2009, as comparações foram muitas. Então o que mudou?

















(Bird Island Research Station 1999)


Ao nível de infrastruturas, existe agora uma nova base cientifica, que foi construída em 2005, substituindo aquela a que tinha estado. A anterior era mais pequena, mais acolhedora e com personalidade própria. No entanto, a nova base oferece excelentes condições. A casa de banho já é dentro da base (na base anterior era fora, no "jetty" onde se atracam os barcos), o que é excelente pois no Verão com otárias por todo o lado, era muito complicado ir à casa de banho à noite. A nova base é maior, dá mais conforto e melhor qualidade de vida.


















(Bird Island research Station 2009)


Uma das maiores diferenças é o contacto com o mundo exterior. Em 1999, não existia internet, as trocas de emails era efectuada apenas 1 vez por dia (ou seja, recebia e enviava emails 1 vez por dia e tinha de esperar outras 24 horas por respostas), o custo de um telefonema era cerca de 2 euros por minuto (muito caro para 1999!). Hoje temos ligação à internet 24 horas por dia (apesar da bandwith ainda ser reduzida) , um telefonema para Inglaterra é de custo local e telefonar para Portugal é como estivesse a telefonar para Inglaterra. Ainda imprimimos o jornal diário de 2-3 páginas sobre o que se passa no mundo mas que de certeza deverá acabar em breve pois com a internet já temos acesso a tudo. Ainda não vemos televisão em directo mas julgo que no futuro, isso vai ser possível. Neste sentido, em 2009 estamos muito mais em contacto como mundo e não nos sentimos tão isolados...isso é bom ou mau, depende apenas do ponto de vista e das saudades...


















(Em 1999, a comida era melhor do que esta (e as máquinas de barbear também)! In 1999, the food was much better than this one)

Ao nível social, acho tudo muito semelhante, apesar de considerar que basta sair uma pessoa na base para a atmosfera mudar. Tal como há 10 anos, somos 4 cientistas e as conversas, a alegria de estar aqui, os objectivos que nos move, continuam inabaláveis. A qualidade dos cozinhados também continuam a um nível elevado já que todos fazem um esforço extra em fazer um bom prato e tirar prazer em cozinhar...aliás acho que isso se aplica a tudo o que se faz aqui. Os passeios, o tirar aquela fotografia, o fazer ski quando se tem tempo, o observar os animais que nos rodeiam com a sua simplicidade própria...a ciência.

Ao nível cientifico, as questões evoluiram e claro a tecnologia também. Para perceber onde os albatrozes iam à procura de comida há 10 anos, eu usei uns aparelhos chamados PTT, que enviava para um satélite a posição geográfica aproximada do albatroz 2-3 vezes por dia (recebia um email no dia seguinte a dizer-me onde o albatroz se encontrava). Hoje, uso aparelhos GPS que registam a posição quase exacta do albatroz cada 20 minutos!!!! Também o modo de fazer ciência se alterou um pouco, com muitos dos estudos a focarem nas alterações climáticas e perceber como os animais são capazes de se adaptarem a essas mudanças no ambiente. A ciência também ficou mais inter-disciplinar com estudos que integram não só comportamento dos animais mas também a oceanografia, a fisica, a química,... de modo a perceber o ecosistema como um todo.























(Os simpáticos pinguins gentoo Pygoscelis papua continuam por cá| The adorable gentoo penguins Pygoscelis papua are still around)


Tenho a sensação que tudo mudou por um lado, e por outro lado, nada mudou. As pessoas mudaram, a base mudou mas Bird Island na sua essência continua maravilhosamente igual...

Is it possible that , in 10 years, a lot has changed, in Bird Island? From being here in 1999 and returning in 2009, the comparisons had to occur sometime. In 1999 the bathroom was in the jetty, the base was smaller and more cosy, the scientists were obviously different. Internet was non-existent, phoning would cost 1 pound per minute and I only got emails once a day (which was already pretty good). Now, internet is a 24 hour affair and having a phone call costs at a local rate to UK. Socially is also different but that is exactly why makes this experience unique. We are still 4 scientists and cooking is still of very high quality. It is great to see the effort that everyone puts in everyday to make a different dish and the enjoyment of being in the kitchen. Indeed, I find that the enthusiasm extends to most of the things we do in the island...including the science. Scientifically, the questions also evolved, with the research becoming more inter-disciplinary and the technology imporved. For example, in 1999 I used PTT that would tell me the geographic position of each albatross 2-3 times a day, now I use GPS devices that can tell me the same information every 20 minutes! I have a feeling that sometimes a lot has changed and other times nothing changed. People changed, the base changed...but Bird Island continues to be a marvellous island...and that is still the same!

domingo, 23 de agosto de 2009

O que fazer? What to do?

A escrever a partir de Bird Island, Geórgia do Sul (Antárctica)
Writing from Bird Island, South Georgia (Antarctic)

















(Excelente churrasco na praia a -3 graus| Brilliant BBQ at -3 degrees)


A Antárctica é uma região muito especial e ver pelos próprios olhos o que está a acontecer é tão importante como também tirar experiências pessoais além da ciência. A maior parte do tempo é passado a fazer ciência...todos os dias, seja Sábado, Domingo, feriados...e é assim durante os 9 meses que aqui estou.




















(O que fazer nos tempos livres? Jogar cricket desde que hajam espectadores especiais como esta otária do Antárctico Arctocephalus gazella| What to do when the weather permits? Play cricket as long as we get nice spectators like this Antarctic fur seal Arctocephalus gazella)


Daí ser fundamental, enquanto se faz ciência, também ter alguns períodos de lazer...aqui todos os 4 cientistas que aqui estão são ferfurosos fotografos e sempre que o tempo o permite, é possível ver as máquinas fotográficas montadas e prontas para ir para o campo.























(Fazer escalada é um dos desportos de eleição para Stacey Adlard| Climing is one of the favourite sports of Stacey Adlard)





Apesar de fazer parte do nosso trabalho, caminhar é também uma das grandes paixões de todos. Com bom tempo, e sem temperaturas demasiado baixas, tentamos sair para partes da ilha que normalmente não nos é possivel ir todos os dias. O exemplo da praia de Johnson, onde existem várias centenas de pinguins gentoo Pygoscelis papua, é evidente, pois apesar de apenas demorar 45 minutos a pé, o caminho não é fácil e não fica a caminho de nenhuma colónia que estou a estudar.


















(As nossas sobremesas são tão boas...quanto ficam bem feitas:)| Our deserts are delicious...when they work:))


Como bom português, tudo associado a comida é ocasião para aproveitar. Assim, quando é possível, fazer um churrasco é excelente para relaxar um pouco e fazer algo diferente. Ontem, no Sábado à noite, foi uma noite excelente. Não havia vento, as nuvens eram poucas e o cozinheiro de serviço (o Derren Fox, o cientista que trabalha com albatrozes), fez umas excelentes espetadas... cozinhar é uma arte, e vir com ideias o que fazer para dar a 3 outros famintos colegas é sempre um desafio. Inicicalmente, é intimidante, depois torna-se rotina até chegar à fase de querer inovar e fazer pratos diferentes. É tão bom ver a cara de satisfação de todos (sempre cheios de fome, pois passamos os dias fora da base, a andar de um lado para o outro a estudar as focas, os pinguins ou os albatrozes) quando experimenta-se algo de novo e a reacção é sempre a mesma...sorriso de aprovação!
























(A caminho da pista de snowboard| On the way ot the snowboard slope)


O mesmo se aplica a desportos. Todos nós somos hávidos snowboarders (ou ski), montanhistas e até cricket! (o desporto inglês que me parece muito com basebol mas que na verdade, é bem diferente). E também gostamos muito de ouvir a rádio, seja relacionado com o cricket (Inglaterra ganhou à Austrália), um desporto de Verão que está tão enraizado na cultura inglesa, que até tivemos a audácia de enviar uma mensagem para os comentadores, e fomos mencionados em directo para todo o mundo a partir da BBC...brilhante! Mas também futebol (seja a liga Inglesa ou a Portuguesa), atletismo, natação...e muitas vezes, mesmo que não estejamos atentos, faz companhia e sentimo-nos mais perto do resto do mundo.


















(A fotografia faz parte do nosso dia a dia| Photography is an everyday affair for us)

Antarctica is such a special region and is so important to witness with our own eyes how AMAZING it is, making the best of it as a personal experience is as important as the science you are doing. We spend every day doing science...Saturdays, Sundays, everyday of the year. While doing science, we can also do other things that we love. Here, all the four of us are keen photographers. While going to the different colonies of penguins, albatrosses or seals, we take our cameras with us in case there is a good opportunity for a nice photo. All of us like walking and climing too. As we walk all around the island, this becomes naturally enjoyable...therefore doing science here is effortless...we love what we do as we work hard:) And when there is enough snow, we try and take our skies or snowboards out for a good session. We also try and be in touch with the world...listenning to the radio when possible. We recently listen to England-Australia in the ashes and even dared to send a message to the commentators of the BBC and we got mentioned LIVE on BBC radio...brilliant! (indeed, even Peter Cordall, a Bird Islander that came with Tickell in 1958 and built a hut here, heard it and sent us a message via BBC...great hearing from him!!)...we also enjoy cooking and when there is good weather, we have BBQ....brilliant times ar Bird Island!!!

domingo, 16 de agosto de 2009

Avalanche de Turismo| Tourism Hotspot

A escrever a partir de Bird Island, Geórgia do Sul (Antárctica)
Writing from Bird Island, South Georgia (Antarctic)


















(As razões do turismo na Antárctica são óbvias| The reasons for the success of tourism in Antarctica are obvious)

Há 50 anos, o primeiro cruzeiro de turismo levou os primeiros 200 passageiros à Antárctida, hoje são mais de 30 000 todos os anos, e o seu crescimento tem sido quase exponencial. Aqui na Geórgia do Sul, registou-se um aumento de 120% do numero de passageiros nos últimos 5 anos. Que impactos tem tanto tourismo? E estará bem regulamentado ou "queremos lá saber"?


A Antárctida é o continente mais isolado do mundo, e também uma das áreas do planeta mais fascinante. Os icebergues enormes, a graciosidade dos pinguins, o frio intenso que nos congela as bochechas, o contacto directo com a natureza, a ausência evidente dos humanos, o sentimento de estarmos num local diferente a que estamos acostumados. E claro, já é um local priviligeado para o tourismo!

Como proteger o meio ambiente Antárctico de tantos turistas? A ideia veio do Sueco-americano Lars-Eric Lindblad, que com um conceito forte na conservação, criou um roteiro turístico que tivesse pouco impacto no ambiente, ao usar cruzeiros (em vez de aviões). O primeiro navio turístico construido preparado para a Antárctica foi o Lindblad Explorer, que visitou o continente em 1969. Este cruzeiro teve também uma forte vertente educativa, com especialistas em várias da ciência polar estivessem a bordo e dessem palestras e servissem de guias...ainda hoje a grande parte dos cruzeiros turísticos na Antárctica são assim.


















(O som e a leveza dos petréis Macronectes spp. a voar é um grande exemplo da Antárctica| the sound and smoothness of flying giant petrels Macronectes spp. are a great example of the Antarctic wildlife)



E então, que impacto do turismo pode ter na Antárctica? De momento, não existe evidências fortes de que o turismo tem um impacto significativo nas plantas, nos animais ou no ambiente da Antárctica. Na verdade, os turistas têm feito menos prejuizos no meio ambiente do que a ciência de alguns países nos últimos 100 anos. Existem velhas bases cientificas abandonadas que só agora estão a ser removidas...está no bom caminho mas...



















(Testemunhar a caça da foca leopardo Hydrurga leptonyx é voltar a origem do mundo, aqui a alimentar-se de um elefante marinho Mirounga leonina| Observing a leopard seal Hydrurga leptonyx hunting is like going back thousands of years, here feeding on a elephant seal Mirounga leonina)


Se o crescimento do turismo é para continuar, que problemas poderão surgir? Dentro de 10-20 anos, o tourismo será a maior actividade humana na Antárctica. Na práctica, o turismo é regulado pela própria indústria, ou seja, quem quiser investir num navio de turismo para a Antárctica, pode o fazer. A boa notícia é que todos os operadores turisticos que operam na Antárctica pertencem a International Association of Antarctica Tour Operators (IAATO), que assegura que o turismo na Antárctica é conduzida de um modo seguro e amigo do ambiente. Seria bom ter uma comissão de regulação do tourismo independente no futuro que poderia, por exemplo, verificar se os cruzeiros estão preparados para ir para a Antárctica. Também seria bom ter bilhetes grátis para educadores (professores de escolas primárias e secundárias) de modo a fazer a ligação com as novas gerações (já que os passageiros destes cruzeiros são mariotariamente de idade avançada, pois são eles que conseguem ter fundos para comprar os bilhetes). Em 2007, o primeiro cruzeiro de 3 000 passageiros visitou a Antárctica....1 ou 2 bilhetes poderão não fazer diferença...



















(A linda foca leopardo Hydrurga leptonyx a dormir| The beautiful leopard seal Hydrurga leptonyx sleeping)


É importante evidenciar que com o turismo há aspectos muito positivos. Ao permitir pessoas irem à Antárctica, encoraja o público a estar mais interessado na conservação e preservação polar. E ao verem com os seus próprios olhos tudo o que a Antárctica é, as pessoas ficam com uma melhor ideia do seu valor. Na verdade, o importante é que todos nós percebamos a importância da Antárctica para o planeta, e que ao visitarmos, o estejamos a ajudar....

















(Os primeiros passos do turismo na Antárctica estão dados| The first steps of the Antarctic tourism have been taken...)


The tourism in Antarctica has exploded!!!! 50 years ago, the first tourism cruise took place, carrying 200 passengers. In 2007, the first 3000 passenger cruise went to Antarctica. Now more than 30 000 tourists going to Antarctica every year....So, is tourism good for Antarctica? Well, it is well regulated by the International Association of Antarctica Tour Operators (IAATO), it brings awareness on conservation and preservation of the polar regions, most cruises have especialists onboard giving lectures and providing guidance on the science and ecology of the region. But is that enough? What are the impacts of tourism? At the moment, there is no strong evidence that tourism has had a significant impact on the plants, animals or landscape in Antarctica....but a constant monotoring of tourism in such a beautiful and amazing place surely needs to be maintained. Also, it would be good to have free tickets (say a couple per cruise) for teachers and educators so that no only "old people" enjoy the experience (as they are the one´s that can afford the tickets) but also making a link to the new generations, through education...

domingo, 9 de agosto de 2009

Podemos salvar o albatroz viajeiro?| Can we save the Wandering albatross?

A escrever a partir de Bird Island, Geórgia do Sul
Writing from Bird Island, South Georgia (Antarctic)

















(Um avião? Não, um albatroz viajeiro Diomedea exulans| A plane? no, just a Wandering albatross Diomedea exulans over me)

Esta pergunta é uma das primeiras questões que nos vêm á cabeça...“o que são albatrozes viajeiros e porque razão estão eles em vias de extinção?"

Os albatrozes viajeiros são das maiores aves marinhas do mundo (podem chegar aos 3 metros de asa a asa), e literalmente passam toda a sua vida no mar. A única excepção a esse estilo de vida é quando têm de se reproduzir, o que acontece em cada 2 anos para eles. Ou seja, o macho e a fêmea só se veem de 2 em 2 anos! Se os albatrozes falassem, a palavra “saudade” teria sido inventado por eles.





















(eles podem ser deeeeste tamanho!!!| They can be thiiiiiis big!!!!)

Na sua grande maioria reproduzem-se em ilhas, como o caso de Bird Island, onde estou.


Na primeira vez que lá fui, em 1999, eu julgava ser o primeiro português a estudar albatrozes, mas cheguei 500 anos tarde demais. Quando os navegadores portugueses se aventuraram pelas costas de África pela primeira vez, encontraram umas aves marinhas de grandes dimensões, pretas e brancas, às quais chamaram “alcatrazes”, que nos séc. XV e XVI significaria grande ave marinha; mais tarde, os navegadores ingleses corromperam esta palavra para “albatross”. Estou a estudar aspectos da sua ecologia comportamental e conservação, algo que não poderia ser feito há 500 anos, e que poderá contribuir para os salvar da extinção. Isto fez-me sentir melhor…


















(Um pai a relaxar durante o Inverno| A dad relaxing during the Winter)


O modo de trabalhar com os albatrozes viajeiros transmite-se nesta pequena história abaixo...

José, um albatroz acabou de chegar! disse Dafydd, um colega biólogo marinho, a entrar em pânico à medida que o rádio receptor captava o sinal. Já tínhamos feito esta rotina muitas vezes, mas os nossos corações sempre aceleravam com a adrenalina quando um albatroz regressava a Bird Island, após uma longa viagem. Em segundos, pusemos as cinco camadas de roupa, emergimos da nossa base para um ar cortante a -10 °C, colocámos os skis e dirigimo-nos para a colónia, monte acima, onde albatrozes se têm reproduzido durante séculos.

















(Um albatross viajeiro para mais uma das suas viagens| A Wandering albatroz starting another foraging trip)

Apesar de ter feito este trajecto muitas vezes, sempre o vi como mais um passo para a realização do meu sonho, fazer ciência numa ilha remota e, mais importante ainda, contribuir para a conservação destas aves marinhas fascinantes. Os albatrozes são as maiores aves marinhas do mundo, podendo chegar aos três metros de asa a asa, reproduzindo-se cada dois anos na Geórgia do Sul. Depois de criarem o seu filhote, os albatrozes fazem uma viagem única no reino animal em torno da Antárctida, pela Austrália, pelo Oceano Índico e regressando à Geórgia do Sul pelo Oceano Pacífico. Neste momento, eles estão aqui e eu rodeado por eles. Dafydd e eu chegámos ao topo do monte e identificámos imediatamente o albatroz com que estávamos a trabalhar, com mais do dobro da minha idade. Estava mesmo junto ao ninho, onde o seu filhote o chamava.




















(A curiosidade nota-se tão bem nos seus olhos| Their curious look is obvious)


A maioria destas aves marinhas nunca viu um ser humano antes. Olham para os humanos com curiosidade e, se nos aproximarmos, não fogem. Depois de capturar esta ave de 12 kg, identificada como BL07 pelo anel que se encontrava na sua perna, e posto confortavelmente no colo do Dafydd, eu recuperei o aparelho de rastreio via satélite que se encontrava nas suas costas.
























(este pequeno aparelho GPS de 20 g, usados este ano, diz-nos onde o albatroz tem andado à procura de comida| This small GPS device (20 g) tell us where the albatross has been foraging)

Enquanto o albatroz se encontrava no mar, o aparelho enviou sinais para um satélite, que nos informava onde o albatroz se encontrava geograficamente. Todos os dias, recebi um e-mail a dizer onde o albatroz tinha estado, algumas vezes tão distante como o Brasil, uns milhares de quilómetros a norte. Uma das suas viagens pode demorar 50 dias. Daí ter exclamado numerosas vezes, com um sorriso estampado na cara, para os meus colegas na base “o albatroz está a caminho de casa, deve chegar amanhã!” Com esta informação, poderei responder a questões a que a comunidade científica debate há muito tempo, tais como onde os albatrozes se alimentam, de que se alimentam e como podem ser afectados pela pesca comercial. Neste momento, os albatrozes estão em vias de extinção. As fêmeas são apanhadas frequentemente pelos anzóis da pesca do palangre, atraídas pelo isco, que opera nas águas da América do Sul, enquanto os machos são ameaçados pela pesca costeira na Geórgia do Sul, ao pé da sua colónia.











(Uma viagem (a vermelho) ao sul do Brazil demora uma semana para eles; o circulo preto é para mostrar como interagem com currentes oceânicas, neste caso a frente sub-Antárctica (SAF)|A trip (in red) to the South of Brazil takes um to a week; the balck circle is to show how they interact with oceanic fronts, in this case the sub-Antarctic Front (SAF))


Para ajudar na conservação destes animais magníficos, o meu trabalho faz parte de vários programas internacionais cientificos para as regiões polares. Eu estou a fazer ciência que directa ou indirectamente vão ser usados para compreendeer melhor os comportamentos dos albatrozes, e sugerir maneiras de minimizar a sua mortalidade. Por exemplo, estudos já desenvolvidos mostraram que, ao usar-se linhas de anzol mais pesadas, estas afundam mais rapidamente imposibilitando os albatrosses de apanharem o isco. Outro exemplo, é o colocar os anzois só à noite, de modo aos albatrozes terem mais dificuldfade em verem os iscos. Estas são duas medias simples, mas extremamente benéficas, que puderão ajudar os albatrosses.


Espero que, daqui a 500 anos, quando os meus descendentes vierem à Geórgia do Sul, também eles tenham a oportunidade de ver albatrozes e que sintam o privilégio e a felicidade de estar aqui... tal como eu.



The wandering albatross Diomedea exulans is facing extinction. I thought I was the first Portuguese to study Wandering albatrosses but I was five hundred years too late. When fifteenth-century Portuguese sailors first ventured down the coast of Africa, they encountered large black and white birds with stout bodies, which they called alcatraz, the Portuguese word for large seabirds; English sailors later corrupted alcatraz to albatross. I was studying aspects of their diet and feeding behaviour in ways that could not be done five hundred years ago, information which may help save them from extinction. They are the biggest seabirds in the world, with a wing span of more than 3 metres. They can travel thousands of km and now we are deploying small devices to understand where they have been foraging (and potentially interacting with fishing vessels; wandering albatrosses are attracted to longline baited longline hooks and might get caught and drown). This is one of its main reasons for the declining of their populations worlwide. We are trying to help...